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O pote rachado

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| D. FERNANDO IÓRIO * Diante de nós aquele delicioso conto hindu, capaz de nos oferecer preciosa lição: o pote rachado. Quase diariamente, laborioso carregador de água conduzia dois potes grandes sobre os ombros, pendurados, um em cada ponta de uma vara. Entretanto, um dos potes possuía exposta rachadura, enquanto o outro era perfeito e sempre chegava com toda a água até o fim do longo caminho entre o poço e a casa; o pote rachado chegava sempre pela metade. Assim foi durante dois anos. Cada vez, o carregador entregava um pote e meio de água na casa do mestre. De um lado, o pote perfeito ficava orgulhoso de sua realização. Ao contrário, o pote rachado, ao lado, estava envergonhado de sua imperfeição, sentindo-se miserável por realizar, apenas, pela metade o que deveria fazer. Certo dia, tomou a decisão e falou para o carregador, à margem do poço. ? ?Estou envergonhado e quero pedir-te desculpas? ? ?Por quê? De que estás envergonhado?? ? ?Nesses dois anos, eu fui capaz de entregar, apenas a metade de minha carga, porque essa rachadura faz com que a água vaze por todo o caminho até a casa do teu Senhor. Por causa do meu defeito, tens todo esse trabalho e não ganhas o salário completo dos teus esforços?. Ficou triste o carregador pelo sentimento do velho pote e disse-lhe, amorosamente: ? ?Quando retornarmos até a casa do meu Senhor, quero que admires as flores, ao longo do caminho?. De fato, à medida que os dois subiam o mesmo caminho, o velho pote rachado ia contemplando as flores selvagens ao longo da estrada, e isso o alegrava. Mas, ao fim da estrada, o pote rachado ainda se sentia mal, porque tinha vazado metade de sua água e, de novo, pediu desculpas ao homem por sua falha. Disse, então, o carregador ao pote rachado: ? ?Notaste que, pelo caminho, somente havia flores no teu lado? Eu, ao conhecer teu defeito, transformei-o em vantagem. Lancei sementes de flores por onde tu passavas. Cada dia, sem notares, tu as regava... Por dois anos, eu pude colher flores para ornamentar a mesa e a casa do meu Senhor. Se não fosses desse jeito que és, assim defeituoso, assim rachado, não teria meu mestre a beleza de tantas flores, embelezando sua casa?. Penso e estou a refletir que, por mais carente que seja alguém sempre deixa, em nosso caminho, sementes de eternidade, ou como diz Tomaz Merton ? ?cemences de contemplations?. (*) É bispo emérito de Palmeira dos Índios e membro da Academia Alagoana de Letras.

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