Opinião
Notas para o Ano Paulino: o sim que pronunciamos
| DOM ANTONIO MUNIZ * Os compromissos não são feitos a longo prazo, não se vislumbra o sentido de crescimento e plenitude como valor de conquista, tudo acontece em função do hoje, contando que o EU esteja satisfeito. Diante disto, pouco importa uma palavra pronunciada, um compromisso assumido ou um rito celebrado, tudo isto perde o seu valor diante do ditame do presente. Um exemplo bem concreto é o modo como tratamos os nossos Votos Religiosos e o compromisso que assumimos na Ordenação ou mesmo, e mais grave ainda: o matrimônio cristão celebrado. Comumente pessoas proclamam estes compromissos em uma celebração marcada com toda pompa e circunstância, pronunciam palavras fortes e comprometedoras diante de testemunhas e, em pouco tempo tudo é ignorado ou jogado fora, como se nada houvesse acontecido e assumem atitudes completamente contrárias e até contraditórias àquela proclamada há poucos dias como valor perene para toda uma existência. Como ficamos diante do ensinamento do Apóstolo Paulo: ?Cristo foi inteiramente sim? (2 Cor. 1,17). Com isso, desembocamos numa visão de mundo na qual tudo é relativo. O Papa Bento XVI, nesta sua recente viagem a Austrália, conclama a juventude do mundo inteiro, a aderir aos valores permanentes e duradouros. O que nos leva à tentação de proclamar que não existem verdades e valores firmes? A busca da verdade deixa de ser um processo de descoberta de um valor perene e passa a ser compreendida como uma fabricação do ser humano e, portanto, a visão do mundo, a moral, os valores, são forjados a partir de critérios intransferíveis em cada momento da história. O que é válido para um tempo não é para os demais, o que é válido para um indivíduo, não serve para os outros. Vamos fragilizando cada vez mais a verdade permanente, que dá sustentação à própria verdade do ser humano como um todo. Acabamos por construir nossa própria verdade. Por que pensar em valores objetivos que norteiam e dão sentido à nossa vida? Por que olhar para ideais que forjam o nosso caminhar para uma qualidade de vida? Tudo é relativo, não há o bem ou o mal, acabamos por nivelar tudo por baixo, pactuando com a superficialidade em todas as esferas de nossa vida, permitindo-nos concessões que transformam a verdade de nossa existência numa caricatura disforme e, comumente brincamos de forma perigosa com aquilo que é mais sagrado para nós. ?E conhecereis a verdade e a verdade vos libertará? (Jo 8,32). Não seria este o grande desafio, também nos nossos dias? (*) É arcebispo metropolitano de Maceió e membro da Ordem Carmelita.