Opinião
A infla��o no bolso do consumidor
| JOSÉ MEDEIROS * Aumento de preços faz parte da vida cotidiana. Ora gasolina, álcool, gás de cozinha, material escolar, alimento, ora vestuário ou remédio. Todos os meses há uma fisgada no bolso do consumidor. Quando a pessoa soma os aumentos durante o ano e suas conseqüências sobre o salário, aparece uma expressão de assombro em seu rosto. Quem sabe quanto ganha, necessita contar quanto gasta. Os números oficiais da inflação divulgados pelo governo não correspondem ao que acontece na vida real. Os números dos economistas são complexos; a contabilidade da população é muito simples e está bem representada no ditado popular: ?O ponto mais sensível do corpo humano é o bolso?. O dinheiro encurta e o que dava para passar 30 dias, dá apenas para 20 ou menos; o cinto é apertado tanto quanto se pode. Essa é a realidade de quem conta, nos dedos, o salário que recebe no fim do mês. Em muitos casos o vilão era o dólar; ele baixou, mas nada mudou. Medicamentos não fogem à regra. Quem toma remédio por ser doente ou por prevenção, sabe bem o preço que paga. Médicos especialistas têm uma perspectiva muito curiosa: aos 55 anos, o usuário toma, pelo menos, um remédio; aos 60, dois remédios; aos 65, três. É quase sempre a fase do aparecimento de moléstias degenerativas, do diabetes, câncer, da hipertensão arterial etc. Em geral, quem se aposenta regride no rendimento que percebe e, ainda, continua pagando contribuição previdenciária. Ah, Brasil injusto com seus idosos e aposentados! A inflação corrói o salário, faz cair o poder aquisitivo. Feijão, arroz, carne e tomate sobem às nuvens. Fico por aqui, senão transfiro um supermercado inteiro para o pequeno espaço desta crônica. A inflação nos alimentos, tudo indica, é a mais perversa para os trabalhadores, especialmente para os que recebem salários menores. A população mantém o desejo de viver, resistente às provações de exíguos salários. As dificuldades do presente e o receio do futuro, talvez, expliquem o fato de que as famílias têm cada vez menos filhos: dificuldade em criar e educar. Uma pesquisa que surpreende foi publicada recentemente: a taxa de mortalidade no Brasil atingiu 1,8 filhos por mulher, em 2006; uma média que corresponde a menos de dois filhos por casal. É uma reação popular de autodefesa, num Brasil de extremos que vulgarmente chamamos de ?belindia?, um tanto Bélgica (rica) e um tanto Índia (pobre e extremamente populosa). (*) É médico e ex-secretário de Educação e de Saúde.