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Opinião

Derrubando muros

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| JORGE BRISENO * O homem, de cabelos rentes, jovial, a bordo de um paletó escuro e demonstrando um vigor alucinante, venceu a escadaria, saltando, de dois em dois, os degraus e, triunfante, salubérrimo, ascendeu ao palco. De onde estava podia vislumbrar um mar de rostos brancos. Um oceano de cabelos aloirados, ondulantes, revoltos. Parecia um trigal balouçando ao sabor e caprichos do vento. Não se intimidou nem demonstrou vacilo ou titubeio. Postou-se diante do microfone e da multidão e abriu seus braços como se almejasse enlaçar a todos. A este gesto, a multidão respondeu com um rugido forte, semelhante ao bramido de ondas raivosas, enfurecidas, chocando-se contra rochedos. O homem, ainda de braços abertos, ficou estático como um monumento feito de ébano. A minha estupefação aumenta ao ouvir a repórter do jornal televisivo: ?É uma multidão comparada a de um show de rock?. Depois de alguns segundos, a estátua negra move-se e apanha o microfone. Agradece aos milhares de alemães que estavam concentrados, espremidos na extensa e larga alameda berlinense, esperando-o, quase incontidos de tanta ansiedade e euforia. O candidato democrata à presidência dos Estados Unidos encantou os teutônicos ao falar da necessidade de que ?precisamos de parceiros que escutem uns aos outros, que aprendam e, acima de tudo, que confiem uns nos outros?. A multidão quase não se conteve quando expressou, sob uma ovação geral, que ?a queda do muro de Berlim trouxe novas esperanças?. Falou da necessidade de os Estados Unidos olharem ?além de si mesmos?. Porém, caro leitor, o melhor ainda estava por vir. A audiência ficou em êxtase, embevecida, ao ouvi-lo dizer: ?Está na hora de construir novas pontes entre os países do mundo, diante dos muros que ameaçam dividi-los, de se derrubar os inúmeros muros levantados desde a guerra fria, entre muçulmanos, judeus e cristãos, brancos e negros, e contra os imigrantes.? Eu, solitário em minha sala, observando com ceticismo aquele espetáculo, pensei com meus botões: e os mexicanos? Nenhuma palavra sobre os mexicanos? Sim, amiguíssimo leitor, você, latino que é, também irá concordar que o Obama deveria ? já que mencionou os muros que dividem a humanidade ? oferecer, em seu discurso, um alento, uma esperança aos milhares de pobres mexicanos, que colocam a vida em jogo ao tentarem atravessar o muro que separa os Estados Unidos do México. Penso como você, caro leitor: Hay muro yo soy contra! (*) É engenheiro e diretor da Casal.

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