Opinião
Mem�rias de um contribuinte
| RONALD MENDONÇA * Não desgostava inteiramente da Sky. Apesar das constantes interrupções nos canais mais altos, dava para levar. Com ela cheguei a manter duas assinaturas, para a casa de praia, onde não havia problemas na recepção, e outro da residência na cidade. Quando precisei me mudar, não havendo condições técnicas para receber o sinal na nova morada, optei pelo óbvio: interromper o acordo. Falar com a mocinha que cancela contratos na Sky é mais difícil do que marcar uma audiência com Osama Bin Laden. Depois de inúmeras tentativas, desisti de permanecer perdendo tempo grudado ao telefone ouvindo irritantes musiquinhas e outros que tais. Sem utilizar o sistema, parei com os pagamentos. Aí começaram as ameaças de enviar o meu nome para órgão isso, órgão aquilo. Velho cliente de uma empresa telefônica, impressionado com as novas conquistas tecnológicas, um amigo resolveu trocar o aparelho celular. Na hora da negociação com a matriz, encarou sessão-massacre com vários entrevistadores através de telefone disponibilizado nas dependências da própria empresa. O cara deu um tremendo azar porque nunca coincidia falar com a pessoa certa. Passando de mão em mão (ou de voz em voz), a cada novo interlocutor era compelido a fornecer ou simplesmente confirmar dados pessoais que acabaram de ser transmitidos. O que poderia ser resolvido em dez minutos, durou mais de uma hora. Com certeza, todo cidadão tem casos semelhantes para contar porque esses abusos repetem-se à exaustão. Por conta disso, embora tardiamente, o governo resolveu endurecer o jogo com os chamados centros de atendimento aos usuários (call centers), assinando decreto para coibir esses absurdos. É possível que a coisa melhore. Vamos ver se as novas regras serão respeitadas pelos órgãos governamentais no que tange à agilidade. Sim, porque a lentidão no atendimento aos preitos dos contribuintes é proverbial. A Receita Federal, por exemplo, com uma estrutura montada para bisbilhotar qualquer migalha amealhada por médicos, dentistas e outros assalariados é de uma lentidão medieval na hora de julgar. Quem recebe uma intimação da Receita precisa estar com o coração em dia para não enfartar. A turma não abre mão de prazos. A festinação é sua marca registrada. São trinta dias para pagar ou a chibatada de multas e juros. (Abro parêntese para comentar a saída do chefão da Receita, Jorge Rachid, até o gogó em contratos suspeitos: Tu quoque, Brutus ?) (*) É médico e professor da Ufal.