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O sonho em Pequim

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| MARCOS DAVI MELO * Entre as muitas polêmicas que a história do pensamento nos legou através dos tempos, uma em especial é das mais saborosas. Foi quando Rousseau afirmou: ?A natureza fez o homem feliz e bom, mas... a sociedade o deprava e o torna miserável? e Balzac respondeu: ?O homem não é bom, nem mau, nasce com instintos e aptidões; a sociedade longe de deprava-lo, como pretendeu Rousseau, o aperfeiçoa, torna-o melhor; mas o interesse devolve-lhe os maus pendores também?. Já estamos em plenas Olimpíadas de Pequim e mais uma vez os homens vão se defrontar e lutar, vencer ou perder, mas sem que precisem se aniquilar uns aos outros, que este é um dos milagres que os esportes nos propiciam. Teremos entre os 277 brasileiros disputando os jogos, três alagoanos: Marta, Marily dos Santos e Bruno Tenório. Eles têm uma peculiaridade: se não fosse o esporte, estariam condenados à pobreza como grande parte dos seus conterrâneos de igual origem. Marta é de longe a mais conhecida e consagrada; mas temos a Marily dos Santos, revelada pelo José Santana, seu primo, conhecido corredor da nossa orla, que a retirou das feiras do interior, onde vendia abacaxi. Vai correr a maratona, a prova isolada mais desgastante, e Bruno Tenório, que competirá em uma prova (os 4x100) na qual o Brasil tem respeitável tradição; inclusive com medalha de prata em Atlanta. Eles se superaram; como afirmava Publio Siro: ?Duas vezes vence quem a si mesmo vence na vitória?. Exemplos semelhantes são muitos. Dois são lendários e representariam todos os demais, somente por terem sido os maiores nomes das maratonas olímpicas: Emil Zatopeck e Abebe Bikila, homens simples, de origem humilde e ao mesmo tempo, gigantes descomunais, imortais. As olimpíadas são um deleite para quem aprecia os exemplos de superação de dificuldades pelos esforços próprios, auferidos muitas vezes sob intenso sacrifício. Vamos ter alguns poucos dias de sonho e devaneio, na pura fantasia de que os homens podem se enfrentar renhidamente, mas tendo pelo perdedor o respeito e a comiseração que só os magnânimos podem ter. Egresso daquelas paragens, Lin Yutang parecia mirar-se nos jogos: ?Ensina-me a vencer, se puder; se não puder, ensina-me a perder bem?. Só os sábios poderão dizer quem entre Rousseau e Balzac estava certo, mas presumo que ambos concordariam que se os homens levassem mais para a prática do dia-a-dia as boas lições do esporte olímpico, eles seriam mais humanos e mais felizes. (*) É médico e professor da Uncisal.

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