Opinião
Vendo nosso hoje com os olhos de Paulo
| DOM ANTONIO MUNIZ * Dessa forma, o outro é desrespeitado na sua dignidade e o coletivo é ignorado como valor, inclusive diante das conseqüências advindas de decisões ou posturas puramente individualistas. No contexto de nossa vida em comunidade, o valor de estar juntos e partilhar a vida de forma profunda na dimensão da comunhão dos corações, é simplesmente ignorado. Somos incapazes de trabalhar com nossos irmãos, de construir projetos comuns, sentimo-nos auto-suficientes em tudo. Ditamos nossas próprias normas. As relações reais são cada vez mais ofuscadas ou negadas pelas chamadas relações virtuais. Às vezes se dedica muito mais tempo a relacionamentos virtuais, esquecendo-se aqueles reais que acontecem no quotidiano. É muito mais cômodo tratar com pessoas que na realidade não existem do que enfrentar o desafio de construir comunidades reais onde o amor e os conflitos fluem do concreto e caminham para atingir aquele nível de maturidade que nos plenifica. Fazendo a memória de alguns aspectos ou características do contexto no qual vivemos e que, em vários modos afetam nossa vida e nos condicionam ou questionam em nossa missão ministerial e que, indubitavelmente, fazem parte de nosso quotidiano, não podemos nos portar de forma passiva ou indiferente. Diante destas sombras que pairam sobre o mundo em nosso tempo e afetam concretamente a nossa vida, o que significa ser um ministro ordenado ou um cristão batizado? Qual o desafio que se ergue diante de nós, que temos a missão de trazer luz às trevas? O que se espera de quem é chamado a entrar no turbilhão e na agonia dos tempos e pronunciar uma palavra de esperança? Qual tem sido nossa atitude diante destas realidades que nos desafiam em nossa fidelidade? Como enfrentamos a tentação de promovermos concessões que, muitas vezes ferem a dignidade de nossa profissão de fé cristã? São Paulo nos propõe um caminho radical: ?Não vos conformeis ao mundo presente, mas sede transformados pela renovação de vossa inteligência, para discernirdes qual é a vontade de Deus: o que é bom, o que lhe é agradável, o que é perfeito? (Rm.12,2). Nossa atitude frente às realidades do presente de nossa história deve ser movida pela fé que gera em nós uma inquietação operante. Jamais devemos nos colocar de forma passiva e ingênua diante do mundo. Necessitamos de uma consciência lúcida que nos faz discernir com sabedoria. O cristão é chamado a agir com inteligência frente aos desafios do tempo presente. (*) É religioso da Ordem Carmelita e arcebispo Metropolitano de Maceió.