Opinião
Ainda no Nepal
| LYSETTE LYRA * Continuando nossa visita a Khatmandu fomos conhecer, na praça Durbar, uma figura sui generis: a Kumari que habita o rico e antigo Kumari Mahal. Existem muitas Kumaris consideradas pelas novas comunidades hindus e budistas, como a encarnação da deusa Taleju ? mas essa é a mais conhecida e venerada. São escolhidas entre meninas de 9 anos que passam a vestir-se luxuosamente num robe vermelho, cobertas de jóias, com a cabeça enfeitada com um toucado de flores, tendo pessoas para banhá-las, maquiá-las, cuidá-las todo tempo, até a puberdade. São, depois, substituídas por outra. Os sacerdotes do templo de Taleju determinam suas funções diárias: ela passa muitas horas recebendo devotos. Consideram-na um pouco oráculo que pode determinar o futuro da nação. Kumari é, talvez, a epítome do único sincretismo religioso no país. No Nepal encontramos seitas as mais diversas, cujos adeptos têm hábitos incríveis, como os sadhus ou ascetas do templo de Pashupatinath. Vivem quase nus, usam barba e bigode longos. Alguns nunca cortaram os cabelos, enrolando-os em cachos que vão até o chão, ou fazem um enorme coque sobre a cabeça. Usam colares rústicos e têm um aspecto muito desagradável. Saímos de ônibus logo cedo para conhecer as altas terras de Nagarkot, que ficam nos flancos da Cordilheira do Himalaia, a 1.300 metros. Passamos por bairros da periferia de Khatmandu e nos sensibilizamos com a pobreza e o atraso dessa nação. Nas margens da estrada uma carne, não sabemos de qual animal, era cortada e comercializada a céu aberto, ali exposta a todas as impurezas. Os rios, secos pelo verão, tornaram-se depósitos de lixo. Mulheres colocavam feixes de trigo no meio do caminho para que os carros, passando por cima deles, os debulhassem. E gente, muita gente pelo caminho. Nas montanhas estava mais agradável. Começara a colheita do trigo que, plantado em terraços, enchia de dourado as paisagens. Havia outras culturas verdes entre frondosas árvores. De vez em quando uma casinha simples, de camponeses. Pela estrada nos deparamos, muitas vezes, com garotas, que poderiam ter uns doze anos, carregando, nas costas, enormes fardos de trigo. Por isso as famílias da zona rural são tão grandes, precisam de braços para trabalhar. A vista era mais bonita na proporção em que subíamos. Mas não conseguimos ver a cordilheira porque estava muito nublado. Chegamos até o Clube e a Casa de Chá que existe no topo do monte. Muito aprazível o lugar onde tomamos uma bebida e comemos uns biscoitos. De volta à cidade visitamos uma grande loja onde vendiam belíssimas peças em prata e latão e, também, jóias de muito bom gosto. E os preços eram incríveis. Dava vontade de levar de tudo. (*) É escritora.