loading-icon
MIX 98.3
NO AR | MACEIÓ

Mix FM

98.3
quarta-feira, 05/08/2026 | Ano | Nº 6282
Maceió, AL
24° Tempo
Logo Gazeta de Alagoas Logo Gazeta de Alagoas
Home > Opinião

Opinião

Munch em Pequim

Ouvir
Compartilhar

| JORGE BRISENO * O homem de cabelos cortados rentes, a bordo de um traje esportivo com as cores azul, verde, branca e amarela, ascende em direção ao tablado. Uma sensação agradável percorre seu corpo ao sentir seus pés afundarem no macio do imenso colchão azul. Um tremor percorre sua face crispada de tensão. Os dedos estão fechados como um torniquete permitindo que as unhas firam as palmas das mãos. Em uma explosão de músculos, corre para executar uma série impecável, perfeita de movimentos. Poderíamos afirmar, olímpico leitor, sem receio de sermos acusados de cometer exageros por conta do nosso patriotismo, que estávamos diante de uma série irreprochável de piruetas, arranques, acrobacias, saltos, pulos, rodopios... A premiação máxima já se cristalizava diante das suas retinas. A medalha de ouro estava logo ali, do outro lado do tablado, encantando-o como as sereias que tentaram, com seu canto, seduzir Ulisses que, para não ir ao encontro do abraço mortal, foi obrigado a amarrar-se ao mastro principal do navio. Ele corre em direção à sereia, desculpem, à medalha com o olhar rútilo, vidrado de desejo. Naquele exato instante, pensa: ?Apenas uma diagonal a mais, um salto, apenas um pulo, um mergulho final e...?. Parecia fácil. Já tinha realizado a série mais árdua. A que faltava já tinha feito dezenas, centenas, milhares de vezes de uma forma corriqueira, sem atropelos, sem erros ? quase como uma atividade rotineira, mecânica, repetitiva, constante em sua vida de ginasta. Impossível cometer deslizes. Na metade do trajeto ele já podia perceber, sentir o frio, o gélido contato do metal da medalha em suas mãos. No último e derradeiro esforço, antes de atingir o píncaro da glória, arremessa-se destemidamente no ar, vara o vazio, rodopia o próprio corpo como um graveto lançado ao espaço, mergulha para a apoteose e, ao firmar os pés no colchão, ele... cai. Sim, isso mesmo, caro leitor, ele desequilibra-se e encosta seu traseiro no chão. Num átimo ainda tenta reparar o erro, apoiando-se com as mãos que deveriam segurar a medalha. Em vão. Cometera um erro fatal, mortal. A face fica ensombrecida e transforma-se em uma máscara de dor, de desespero. A boca entreaberta, como se desejasse gritar, mostra a mais profunda e atroz angústia. Leva as mãos ao rosto. Parecia, sensível leitor, que naquele instante ? e você que é amante da arte expressionista haverá de concordar ? Diego Hypólito era uma reprodução do sombrio e trágico quadro (O Grito) do norueguês Edvard Munch. (*) É engenheiro.

Relacionadas