Opinião
Az�famas
MARCOS DAVI MELO * A irrupção de inusitada azáfama no último domingo no concurso do Tribunal de Justiça de Alagoas, impedindo-o de se realizar, não veio como fato isolado, tampouco no contexto local quanto no nacional. No mesmo dia, o jornal Folha de São Paulo publicava como manchete de primeira página: ?Brasil apresenta o segundo maior contigente de desempregados do mundo?, vindo logo depois da Índia, país que tem uma população dez vezes maior do que a nossa. Concomitantemente, os índices de violência explodiam em todos os cantos do país, inclusive entre nós, o que mereceu criteriosa análise, contida em encorpado artigo do articulista e líder sindical Sérgio Barroso, também no último fim de semana na GAZETA de Alagoas. A relação entre desemprego e violência nunca pareceu tão gritante. Como diria Aulo Gélio: ?Veritas temporis filia?, a verdade é filha do tempo. Contribuindo para azedar o caldo ainda mais, a redução da atividade industrial nacional é recorde nos últimos anos e o cenário é ainda mais devastador entre nós, que nos resumimos ao setor sucroalcooleiro, encolhendo aqui para vicejar alhures. Estudo do economista Cícero Péricles, publicado na GAZETA de Alagoas de domingo passado, mostra estagnação da economia de Alagoas há cerca de dez anos. Somos o consumo per capita que menos cresce, pior, regride, mesmo em relação aos outros Estados do Nordeste. Conseqüência inevitável: retração ainda maior da atividade produtiva e ainda mais desempregados pressionando o caldeirão alagoano. Se o episódio de interrupção do concurso do TJ de Alagoas, decorrente da baderna com depredação de prédios públicos, merece reprovação de todos os que anseiam por ordem, disciplina e regularidade nas coisas, sejam públicas ou privadas, não se pode negar que existe na sociedade uma indisfarçável desconfiança em relação à probidade com a qual se fizeram os concursos e admissões de serventuários no serviço público, entre eles o judiciário ? que deveria servir de modelo de integridade e parâmetro de rigor entre os demais poderes -, em terras caetés, durante todo o nosso passado mais recente. Os acontecimentos nacionais na área econômica e social parecem mostrar que seguir à risca a cartilha neoliberal do Consenso de Washington não nos levou a outra coisa melhor do que isto que está aí. O outro exemplo de aluno aplicado e ainda mais avançado neste receituário é a vizinha Argentina. Os sinais vindos da sociedade são evidentes: reduz-se o espaço para engodos, subterfúgios e mentiras a serem arroladas para a população alagoana e brasileira. Podem manipular os números e as informações durante algum tempo, muito tempo, mas não eternamente. A verdade, como represa que um dia vai transbordar, vai ameaçar irromper e tirar o fôlego de muitos alquimistas do poder. Estejam em qualquer facção política ou ideológica, a verdade, de tão maltratada, teimosamente vai aparecer e com ela toda a dramaticidade da realidade. O momento atual é acerbo nimis, como clamava Pio X contra o cenário ingrato que o cercava. E só piora, com episódios como a demissão do ministro da Justiça, decorrente da fundamentada e frustrada intervenção federal no Espírito Santo. Mas há de se buscar sempre algo para não nos deixarmos abater e neste caso, espera-se, tantos maus exemplos possam contribuir a latere para amadurecer a sociedade, dando-lhe um mínimo de condições para melhor eleger os seus representantes. Ex corde, que a boca diga aquilo de que está cheio o coração. (*) É médico