Opinião
O vegetal humano
| MARCOS DAVI * Quem é médico ou trabalha na área de saúde mais do que ninguém convive com os momentos mais felizes e mais trágicos do ser humano. O nascimento de uma criança saudável é o momento de maior realização de um casal; assim como a morte de um parente próximo, normalmente é um trauma de imensas proporções para a maioria das pessoas. Mas existem, entre estes dois extremos, muitos momentos intermediários, dramáticos, que podem se prolongar em seu sofrimento por longos meses ou até vários anos em sua agonia. Uma das situações mais corriqueiras é quando uma pessoa é acometida por um derrame cerebral; um trauma violento, ou complicações de cirurgias e foi levada para uma UTI. Por mais crítico que seja o seu estado, enquanto as funções cerebrais estiverem compatíveis, sempre existirá uma esperança; quando, todavia, constata-se a morte cerebral, já não há motivos para nenhuma esperança. Passará a ser um depósito de tubos e sondas, que lhe penetram o organismo por quase todos os seus orifícios naturais; agressivos corpos estranhos que lhe levam alguns nutrientes que o mantêm e lhe retiram de dentro os fluidos naturais. E, isto pode perdurar... Acredito que enquanto existir alguma esperança de recuperação, mesmo que seja com seqüelas, tudo o que se fizer é válido e digno para salvar uma vida; todavia, nos casos de morte cerebral e de fetos anencéfalos, que já surgirão no mundo nas mais infames condições de sobrevivência, não existe nenhuma dignidade; nem para o paciente, nem para os parentes e muito menos para a Medicina. O Supremo começa a julgar uma questão basilar: o direito da mulher gestante de um feto anencefálo poder ter o direito, caso assim o queira de interromper a gravidez. A gestação de um feto anencefálo traz para a gestante uma série de riscos que inclusive ameaçam a sua própria vida, como a hipertensão. Junte-se a isto, a certeza de que as crianças geradas em sua totalidade viverão poucas horas. Como bem frisou André Petry esta semana na Veja: ? Será uma gestação que gerará a morte e não a vida? É uma crueldade medieval condenar uma mulher a gerar um feto por nove meses e depois entregar-lhe um pequeno vegetal, sem esperanças de que venha a se transformar em um ser humano. Quem na vida conviveu ou convive com uma situação semelhante pode muito bem avaliar o quanto isto é difícil, doloroso e pior ? indignamente sem perspectivas. O STF na pessoa do relator, eminente ministro Marco Aurélio Mello haverá de mais uma vez trazer luz às trevas. (*) É médico e professor da Uncisal.