Opinião
Desintelig�ncia - Editorial
Agindo com rapidez, e acertando, o presidente Luiz Inácio da Silva demitiu toda a cúpula da Abin (Agência Brasileira de Inteligência), em função das denúncias de escuta ilegal realizada contra o Supremo Tribunal Federal. Procurando não ficar atrás, a Ministra Chefe da Casa Civil, foi ainda mais fundo na tentativa de demonstrar sua indignação com o grampo e comparou a escuta clandestina com as práticas da Gestapo, citando os casos de invasão de privacidade largamente cometidos quando do regime nazista. Com acerto, o presidente da República se antecipou a uma crise que poderia ter proporções de vulto. Exageradamente, a titular da Casa Civil, suposta pleiteante ao Palácio do Planalto, ideologizou uma prática ilegal que é característica ? infelizmente ? de todos os serviços de espionagem, sejam de regimes à direita, à esquerda ou ao centro. Além da Gestapo, a KGB não abria mão desta prática; muito menos o MI-5 britânico e muito menos a CIA e o FBI. A questão dos limites de ação para as chamadas operações de inteligência é o que precisa ser discutido como contradição presente em todos os sistemas e como uma afronta à cidadania em quaisquer regimes ? especialmente naqueles onde a democracia e o Estado de direito são princípios esposados. Há quase 20 anos, quando foi extinto o SNI (Serviço Nacional de Informações), iniciou-se o esforço para a construção de um serviço de inteligência verdadeiramente novo e estratégico, em contraposição às deformações provocadas pelas práticas ilegais dos exércitos de espiões que marcaram a guerra fria. Infelizmente, em decorrência da interrupção do processo modernizador em 1992, o que era novo foi sendo envelhecido rapidamente, e pelo que se depreende hoje, retornou-se aos conceitos da espionagem pura e simples. Dispensando-se os jogos ideológicos, esse mal deve ser extirpado sem mais delongas.