Opinião
�ndios trepidantes
| JORGE BRISENO * Aconteceu por volta das 14h30, por aí. Estava me dirigindo a uma cidade próxima a Maceió, para visitar uma estação de captação de água construída recentemente. As nuvens, cor de chumbo, prenunciavam um dilúvio. Começo a pensar nas dificuldades que enfrentarei em acessar o local da obra, instalada em uma pirambeira que dá gosto de ver, quando o celular toca. Do outro lado da linha ? não sei se é dessa forma que ainda devemos escrever nesses tempos de celular ? uma voz me avisa: ?A reunião com os índios foi marcada para hoje, às 15 horas, na secretaria. É importante a presença de um representante da Casal. Você vai?? Respondo: ?Vou?. Faço a volta e disparo para a secretaria, ali na Rua do Sol, no Centro. Era uma reunião que aguardava com ansiedade crescente. Esperava encontrar uma parafernália de cocares, tacapes, bordunas, lanças, arcos... Enfim, todos os acessórios apropriados aos silvícolas. Não consegui, caro leitor, afastar uma sombra de decepção e de desapontamento da face ao ver entrar na sala um grupo de homens bem vestidos, falantes, todos se exprimindo através de um português bem desembaraçado, utilizando celulares e, veja você, um deles com um boné da Nike e outro com uma pasta 007. Fiquei frustrado. Desculpe, amigo leitor, chegamos até aqui e não lhe disse qual a pauta da reunião. Nós estávamos solicitando autorização dos indígenas para atravessar o seu território com uma adutora que irá reforçar o abastecimento de água de uma cidade do interior do Estado, localizada na região serrana. As exigências dos índios são exageradas, rigorosas, totalmente dissonantes, destoantes do que foi negociado com outros proprietários por onde a adutora já passou. O tom da negociação se eleva. Não chegamos a um acordo. Confusão. Algaravia medonha. Em determinado momento, um de aspecto aloirado, com cabelos encaracolados e de olhos azuis se exalta. Pergunto se ele é advogado dos índios e ele me responde: ?Não, na verdade eu sou um índio?. Ao ouvir, dou um pulo na cadeira: ?Um índio! Louro! Mas eu pensei que...? Ele, ao sentir meu estupor, me interrompe e dardeja: ?Sim, isso mesmo, um índio. E o senhor me respeite porque aqui você é que é o estrangeiro?. E ainda me lança uma flechada: ?Nós chegamos aqui primeiro?. Chegamos a um impasse. Todos se levantam bruscamente. Um celular toca. O índio aloirado atende e diz: ?Não querida, hoje eu não vou ao analista e...? Penso: ?Coitado, deve ser crise de identidade?. (*) É engenheiro e diretor da Casal.