Opinião
Velho novo Chico
LUIZ SÁVIO DE ALMEIDA * Faz tempo, mas uma vez saímos de Penedo e fomos a Traipu em uma lancha e depois voltamos para a mesma valorosa e leal Vila do Penedo. O objetivo era Piranhas, mas o tempo fez com que Traipu se transformasse em meta. À medida que a lancha começava a deslocar-se da velha Penedo, cada vez mais batia a impressão de que o rio era ilusão e que havia uma diferença singular entre as águas que corriam e o Velho Chico, por mim conhecido desde a nascença na Serra da Canastra. É que tudo se modificou quando suas águas viveram a grande transformação para mercadoria, quando foram domesticadas. A domesticação do rio mexeu com todo o seu significado. Na verdade, as águas passaram a correr por dentro de fios, passaram por uma presença acentuada da idéia de mudança social deliberada, induzida e que foi solapando em nome do progresso a própria fauna, a própria flora e tudo foi mudando, a tudo afetando, fazendo com que o rio fosse uma imensa posse governamental, cuja lógica o encolhia e o desdobrava em novos sentidos. Em nenhum restaurante havia peixe do rio para se comer; possivelmente, o pescador havia morrido ou estava resumido a um de nada. Até mesmo a piranha não mete mais medo, ela que deixava marcas do terrível em meu tempo de infância. Eu era proibido de entrar no rio; meu pai era o que mais falava. Piranha não é bicho fácil, come um boi num piscar de olhos e o velho tinha medo de perder o filho para o bucho das assassinas. Agora, estava ali com alguns professores e alunos e eu não tinha receio da piranha que me fundou o horrendo na infância penedense; eu mergulhava nas águas do rio e nem de leve havia medo. O que tinham feito com os peixes poderia ser extrapolado para os homens? Será que haviam desaparecido, será que sentiam amargores pela vida? Não sei como responder. Sei que estava ali, a ver o mundo com um bocado de gente da Universidade a desejar conhecer o mistério. Assim mesmo, o rio entusiasma. Já havia viajado de Pirapora a Petrolina em navio gaiola, ainda recordo de viagem nas desaparecidas canoas de tolda, já andei parte do rio por cima, num pequeno teco-teco... Nas suas beiras, moram diversos amigos kariri-xocó. A sensação agora era diferente: levava alunos para verem o mundo, saírem do modorrento das salas de aula, incentivar a procura de temas, ajudar a abrir a cabeça para formular questões, aguçar o senso da observação, sentir que o aparentemente prosaico do dia a dia é a história andando, o tempo rolando como rolam as gentes pelas águas do rio. Estava vivendo situações distintas: triste com o rio, espantado com a beleza que ainda aparecia e encantado com a oportunidade que os meninos estavam vivendo. A Universidade estava viva ali, roçando o fundo do rio e tendo sentido. Lembrei-me de alguém dizendo que a escola é o mundo, no sentido de que não existe porteira a abrir ou a fechar e que as águas descendo poderiam perfeitamente passar pelo campus e não seria uma transposição e nem uma justaposição se ela mesma, a Universidade, também fosse os pescadores a preocuparem-se com o sumiço dos peixes. Ela tem que ter a vida de sua comunidade e mais do que um templo onde se produz o conhecimento, deve ser humilde para aprender com os humilhados e ofendidos e ser deles, como o céu é do avião no dizer do Caetano Veloso. (*) É PROFESSOR DA UFAL E DOUTOR EM HISTÓRIA