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Opinião

Ave, Cafu!

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RONALD MENDONÇA * A conquista do quinto título mundial de futebol expôs o lado bom dos heróis do penta. É impressionante a história de vida desses atletas. A começar pela origem humilde - com o detalhe de não ser miserável, onde o papel da mãe é de suma importância. Perseverança, disciplina, humildade ? submissão (humilhações, às vezes) mas, sobretudo, talento aliado à sorte, são requisitos imprescindíveis. Passar pela peneira que ?garimpa? os futuros ídolos é tarefa para um quase Hércules. O fato é que num determinado momento, um pós-adolescente, trânsfuga habitual da escola primária, oriundo de um lar onde não faltam dificuldades, muitos deles contando somente com a força materna ? em todos os sentidos, projeta-se para o mundo, recebendo salários que nós outros, médicos, professores e quetais - cujos ganhos beiram o ridículo - impiedosamente criticamos. As justificativas para essa aparente distorção, por mais que nos contrariem, passam pelo alto retorno financeiro propiciado pelo craque, que por si só já é uma exceção -mesmo entre os melhores, e pela efemeridade da profissão. É desse modo que os mortais ordinários, de queixos caídos, ficam sabendo que jogadores do quilate de Ronaldinho ?Fenômeno?, Rivaldo, Roberto Carlos, Cafu etc. têm salários que nem executivo de tráfico sonha ter. Matizes do comportamento dos atuais atletas vêm chamando a atenção dos es-tudiosos do assunto e dos curiosos em geral. Ainda são bem vivas as imagens que marcaram a trajetória das anteriores gerações de elite dos nossos jogadores, quando muitos destruíram tudo o que conseguiram amealhar enquanto estavam no auge da fama. Imaturidade, falta de orientação e Deus sabe mais o que lançaram-nos nas armadilhas do consumismo desenfreado, do alcoolismo e das mulheres rápidas. O trágico final de Garrincha talvez tenha servido de lição. Com efeito, a mudança foi notável. Sem que tenham se transformado em Santos Agostinhos, os ungidos craques modernos se cuidam muito mais, expondo-se menos às chamadas fraquezas da carne, até porque sabem que é essencial, além da habilidade com a bola, ser portador de um estado atlético avantajado. Os farristas, geralmente, ficam no meio do caminho. Milionários e bem orientados, as estrelas mundiais do esporte dedicam, hoje, somas nada desprezíveis a obras de cunho social como creches, escolas, hospitais públicos, às vezes patrocinando outros atletas em formação, de modo semelhante ao que fazem as grandes empresas. Claro que tudo tem seu preço (que nesses casos chama-se Imposto de Renda), mas não deixa de ser extraordinário que um menino pobre, apelidado de Cafu, e criado em frente à ?Rua da Bosta?, na Vila Irene, esteja em pé de igualdade, em filantropia, com qualquer ricaço nascido nas imediações da Avenida Paulista. (*) É MÉDICO E PROFESSOR DA UFAL

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