Opinião
Cacos de novos ricos
| RONALD MENDONÇA * O exemplo vem do Norte. Sarah Palin, a candidata republicana à vice-presidência dos Estados Unidos teria desfrutado de vantagens financeiras incompatíveis com as expectativas locais. Sem saber qual o desdobramento político dessas descobertas, no momento, o que chama mesmo a atenção é o valor da bocanhada da evangélica Sarah: merreca em torno de 150 mil reais. Enquanto isso, na província, estourou a bomba de que ex-governadores (titular e vice) e um deputado federal, dentre outros, tiveram os bens bloqueados. Protagonistas de um rombo de 70 milhões em apenas uma secretaria do Estado, a grana destinava-se a financiar a merenda escolar. O fato ? que não chega a surpreender, muito menos a decepcionar ?, por envolver figuras eloquentes da nossa política tem várias leituras. Uma delas, a mais ingênua, é cunhar a ação com o eufêmico ?irresponsável descompromisso? dos acusados, que não só jogam no lixo da história as próprias biografias como interrompem escalas de vôos mais ousados. Dado relevante, o período em que as libações com a merenda teriam sido cometidas coincide com as orgias na Assembléia Legislativa, sombria fase da Casa de Tavares Bastos em que os cofres públicos foram saqueados em qualquer coisa próxima de trezentos milhões. Ou seja, foi uma época de geral libertinagem para os que gravitavam no poder. Não precisa ter PhD em finanças públicas. Basta comparar os estragos que dona Sarah fez nos EUA com os de Alagoas para se concluir qual a economia mais pungente. Daí a idéia de acabar de vez com esse torturante complexo de que nosso Estado é pobre e inviável. Na realidade, afligi-nos a ciclotimia. Por exemplo, o tomógrafo da UE de Arapiraca está parado há dois meses. Diz-se que calote de 40 mil na empresa que dá manutenção ao aparelho espanta a atual revisão. É irônico que, numa terra onde há indícios de desvios que beiram um bilhão de reais, um simples remendo num velho tomógrafo esbarre em causa tão prosaica. Nossa bipolaridade fica clara com a indigesta classificação da Uncisal no ranking das universidades brasileiras. Com efeito, sonho e esperança dos jovens estudantes alagoanos, a Uncisal agoniza no fundo do poço. É a pior entre as piores. Por falar em ansiedade, sussurra-se em altas vozes que mentes e corações vão bater descompassados quando se destamparem as antigas caixas-pretas de outras secretarias. Vaticina-se que cacos de novos ricos voarão pra tudo que é lado. (*) É médico e professor da Ufal.