Opinião
Fome de p�o e da beleza
| DOM FERNANDO IÓRIO * Num belo conto de Onélio Cardozo, encontramos: ?O ser humano tem duas grandes fomes ? a de pão e a de beleza. A primeira é saciável; a segunda, infindável?. O drama da humanidade é que ainda não se conseguiu saciar a primeira. Certa feita, acrescenta o contista cubano, perguntaram-me: ?Qual a razão da queda do muro de Berlim??. Respondi, como homem de esquerda: a razão está em que o socialismo cometeu o erro de achar que saciaria a fome de pão sem se preocupar em saciar a de beleza. A beleza é uma das faces de Deus que se revela ao ser humano e o convoca para que a descubra e a comunique aos outros como caminho de experiência e de vitória. Mais do que o pão, a beleza nos fascina e nos atemoriza com a força de sua sedução. Daí, Rudolf Otto chamar a beleza de ?mysterium tremendum? e de ?mysterium fascinans?. A beleza foi chamada de ?numinosa? pelo seu poder fascinante de superar as crises da história. Se nós não nos preocuparmos com a fome da beleza, jamais saciaremos a fome de pão. Mister se faz alimentar a inquietude do coração em gustar a beleza fascinante que brota da verdade. O clássico texto de Agostinho nas Confissões oferece-nos aquele exemplo admirável do fascínio da beleza que seduz o ser humano: ? ?Ó Deus! Formosura sempre antiga e sempre nova... quão tarde te conheci. Tu estavas no recôndito do meu coração e eu te buscava lá fora. Tu estavas comigo; eu, no entanto, não estava contigo. Mas, tu gritaste por mim, rompeste a minha surdez, afugentaste a minha cegueira. Recendeste suaves perfumes em torno de mim e eu os sorvi... Saboreei-te e, agora, tenho fome de ti. Agora ? quanto mais te possuo, tanto mais te procuro: ?Noverim me ut amem te ? (Que eu me conheça para te amar)? ? E conclui: ?Fizeste-nos para ti, por isso ? inquietum cor nostrum, donec requiescat in te (nosso coração está inquieto, enquanto em ti repousar)?. São João da Cruz chega quase ao desespero por não poder contemplar a beleza pela qual seus olhos anseiam.Bem assim, Simone Weil, mulher genial do século 20, chega a fornecer-nos profundos elementos para que possamos compreender esse fascinante e imenso paradoxo da beleza na experiência humana, através da teoria matemática das proporções. No fim de contas, chegamos à conclusão de como está longe nosso ensino de educar para a beleza. (*) Bispo emérito de Palmeira dos Índios e membro da Academia Alagoana de Letras.