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O descanso da guerreira

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| FÁTIMA ALBUQUERQUE * O dia amanheceu nublado e parecia ser mais um daqueles dias de chuva impertinente. Eu estava triste, mas decidida a passar parte do dia velando o corpo da amiga Jarede Viana. Tinha estado com ela na sexta-feira, quando pude por uns breves momentos compartilhar de sua presença viva, mas com ares de partida. O caixão estava lá, bem na frente do púlpito. Uma grande bandeira descansava dobrada sobre parte de seu corpo. A guerreira estava lá: olhos cerrados, semblante plácido, hora poente. Pétalas de rosas vermelhas espalhadas ao seu redor formavam um V. ?V de Viana, V de vitoriosa?, disse-me uma amiga. Sentada em um banco, eu observava a despedida de uma guerreira. Como seria a despedida de uma pessoa assim? Vi, desde cedo, amigos e amigas chegarem. Um a um chegavam perto da urna e olhavam como se não acreditassem que aquilo fosse possível. Eram familiares, sindicalistas, pessoas enfronhadas na política, pessoas do povo (?da base?). As flores eram muitas, e à medida que dia avançava, mais e mais chegavam, como se de repente a primavera tivesse chegado antecipadamente. Jarede foi assim: antecipada em tudo, primavera. Vanguarda por natureza, rebelde na essência, encrenqueira por opção, ela enfrentou lutas diversas, inclusive quando a repressão política ceifava vidas de corajosas pessoas, que teimavam em acreditar na força da liberdade. Chegaram outras bandeiras e aos poucos a trilha de Jarede foi se desenhando à vista de todos. Não que já não se soubesse de tudo, mas sempre nos espantamos quando colocamos sobre a mesa, todas as cartas do nosso jogo da vida. Quando olhei para trás, percebi que a igreja estava cheia, santa ceia. O pastor da igreja onde acontecia o velório, diante de todas as pessoas e mais ainda, diante de Jarede, justificou que não estaria como líder religioso, mas como amigo. Disse também que não estaria ali com a missão de ?encomendar o corpo?, porque aquela missão já tinha sido realizada por Jarede, cotidianamente, durante toda sua jornada de lutas por justiça social. Duas velhas amigas, antigas companheiras de militância, durante o período da ditadura militar, saudaram respeitosamente a guerreira: Alba Correia e Ivanilda Verçosa. Outras pessoas, não menos importantes, também deram depoimentos. Uma senhora caminhando vagarosamente parou diante da urna, olhou demoradamente e falou baixinho: ?Vá em paz companheira! A gente fica aqui na luta!?. Foram muitas as áreas de atuação da guerreira, porque quem luta contra a opressão, exclusão social, liberdade e justiça, peregrina por diversos caminhos. (*) É professora da Ufal.

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