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| JORGE BRISENO * Ah, amigo leitor, confesso que se tivesse um chicote nas mãos eu fustigaria os arautos do liberalismo econômico quando, trepados em uma mesa e batendo no peito, esbravejam: ?O mercado deve ser livre de amarras, ele se auto-regulamenta, ele próprio se controla?. E dobro de rir e libero, com toda desinibição, uma gargalhada estrondosa quando os escuto urrar: ?Menos estado, mais mercado?. Nós, eu e você, paciente leitor, estamos a observar o que acontece quando permitimos que as forças do mercado atuem livremente. O resultado está aí, palpável, sólido, visível como um monumento em praça pública. Os EUA encalacraram o mundo em uma das mais sérias crises econômicas já observadas. Alguns economistas chegam a afirmar que desde a quebradeira de 1929 não observamos tamanha lambança. E a você, dulcíssimo leitor, que me acompanhou até aqui, eu indago: ?Por que tal fato veio a ocorrer??. Ora, que me desculpem os mais empedernidos liberais, tal fenômeno foi detonado exatamente porque as benevolentes ?forças de mercado? foram deixadas, irresponsavelmente, livres de qualquer controle, de qualquer regulamentação. Reproduz-se então a velha história, carregada de hipocrisia: Quando ocorre o lucro, privatizam-se os seus resultados e quando irrompe o prejuízo, socializa-se o rombo. Quando ocorre a débâcle, até o mais radical dos liberais econômicos, daqueles capazes de carregar estandarte em passeatas defendendo o estado mínimo, torna-se, como por encanto, radical e perigoso socialista. Corre em bandos aos cofres e às arcas do Tesouro que, em última análise, guardam recursos de toda a população. Veja você, irado leitor: o Bush está defendendo a liberação, por parte do Tesouro Americano, de US$ 700 bilhões (isso mesmo, eu disse bi) para ajudar aos amigos, desculpem, aos bancos e corretoras que foram imprudentes em sua gestão. Enquanto isso, 17 milhões de pessoas no continente africano necessitam, urgentemente, de alimentos. A ONU (Organização das Nações Unidas) afirma que, para isto, são suficientes ? veja a coincidência do número ?, atento leitor, US$ 700 milhões (eu disse mi). Asseguro-lhe que os US$ 700 bilhões para os bancos quebrados serão liberados como em um passe de mágica, enquanto se solicitará dos esfomeados africanos compreensão na demora em liberar os US$ 700 milhões. Afinal de contas, devemos ser solidários com os pobres e socialistas banqueiros falidos dos EUA. (*) É engenheiro e diretor da Casal.

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