Opinião
Os anjos: realidade que faz pensar
| CÔNEGO HENRIQUE SOARES * A Igreja celebrou, na passada segunda-feira, a Festa dos Santos arcanjos Miguel, Gabriel e Rafael; ontem, quinta-feira, os Anjos da Guarda. Pode parecer exótico em pleno século 21 crer ainda na existência dos anjos, no entanto é esta a fé da Igreja, expressa nas Escrituras, na Liturgia, no Magistério, na catequese, na pregação, na piedade privada e na fé comum do Povo de Deus. Esta convicção recorda que o homem não é o centro nem a medida de todas as coisas e nem mesmo da criação. Se ele é o ser mais elevado deste mundo visível, no entanto, não o é dentre todas as criaturas. Todos, seres celestes e homens, fomos criados para a glória de Deus (e a glória de Deus é dar vida, é fazer o bem, é salvar, chamando à comunhão de vida e plenitude com ele). Este fato nos faz reavaliar o homem, que deve ser mais humilde e compreender que ele é parte da criação e não seu dono; é mordomo do mundo visível, não o tirano despótico que o usa como bem quer. O centro de tudo, o critério do bem e do mal é Deus e não o homem. Os que pensam que os anjos não existem, porque não cabem na nossa percepção sensível ou na nossa lógica imanentista e racionalista, colocam o homem como aquilo que ele não é: o centro e o critério da criação, a medida da realidade! Ao invés, deveríamos gostosamente admirar e a louvar a Deus pela plenitude de sua vida, de seu dinamismo e de seu amor, que explode em tão variada e surpreendente criação. Não sabemos quase nada sobre esses seres e não precisamos saber, pois Deus somente nos revela aquilo que é para a nossa salvação: ?As coisas reveladas pertencem ao homem; as ocultas, ao Senhor?. É errado e presunçoso querer especular sobre os segredos do mundo espiritual. O que é útil à nossa salvação Deus revelou; o que não o é, guardou para si. Um outro aspecto belo: criados em Cristo, esses seres espirituais são essencialmente bons e estão em comunhão conosco, por nós rezam e nos socorrem, na comunhão dos santos, que é a Igreja da terra e a do céu. Portanto, não precisamos ir de planeta em planeta para não nos sentirmos sozinhos; basta olhar para o céu! Se tivermos a coragem de levar a sério o que Deus nos revelou em Jesus Cristo, se tivermos a audácia e a inocência de crer, deixando de lado o tolo orgulho ?adolescentóide? de quem deseja enquadrar tudo na sua lógica minúscula, teremos a alegria de compreender a vida como imenso dom de um Amor sem fim e aprenderemos a viver a existência com delicada gratidão a Deus. Este é um dos aspectos do ser como uma criança, herdeira do Reino dos Céus. (*) É sacerdote e professor de Teologia.