Opinião
De doutrinas e avi�es
Conta-se que um incorrigível agnóstico vivia embate de vida ou morte numa UTI. A esposa, uma santa criatura ligada a Frei Betto e Leonardo Boff, temendo que na hora do ?grande encontro? o marido fosse lançado sem cerimônia às trevas exteriores, teria convidado um deles para uma visita religiosa. Querendo causar impacto, a boa mulher não advertiu o moribundo da piedosa intenção. Na hora combinada, o religioso aproximou-se do leito do doente, com aquele clássico ar condescendente, abriu um breviário e deitou orações. Justo aí, o impenitente começou a passar mal, com os olhos esbugalhados de desespero e revolta contra o celebrante, enquanto gesticulava pedindo caneta e papel. Mal terminou de escrever, soltou um último suspiro e morreu. Imaginem o sentimento de culpa da esposa pelo catastrófico desfecho. No fundo, passou a admirar ainda mais o marido, ateu convicto até o último momento. Por delicadeza, foi-lhe ocultado o conteúdo do bilhete: ?Peçam a este f. da p. para tirar o pé de cima da mangueira de oxigênio. Ele está me matando?. À sombra de abissal desconhecimento, estou convencido de que o capitalismo, que há anos oscila, está pedindo caneta e papel. Agora, com a questão do ?subprime? americano, pisaram com os dois pés na mangueira de oxigênio. Não é para menos. Doutrina complicada, cheia de leis imprecisas, capciosas (?leis do mercado?, ?mão invisível?, ?lei da oferta e da procura?), o capitalismo, de fato, não é matéria para neófitos. Boa e virtuosa é a doutrina comunista: ?A cada um segundo suas necessidades?. Simples e objetiva, onde as pessoas são generosas, desprovidas de ganância. Não tem essa coisa de bolsa de valores, especulação, consumismo, gato por lebre, crises cíclicas e outras tramóias. Por falar nisso, e aproveitando o período eleitoral, lembro de um encontro para formar um grupo de apoio de médicos para uma candidatura majoritária da situação. Na época, os médicos ganhavam até razoavelmente, o correspondente a dez salários mínimos. Depois de uns uísques, um espírito de porco levantaria a lebre sobre uma recente nomeação, para aviador do Estado, de um filho de um político, ganhando seis vezes mais que o médico. A questão era simples como o comunismo: prepara-se um médico em dez anos; um piloto de teco-teco em quatro meses. Nesse instante, um puxa-saco levantou a voz gutural e ensinou: ?É a lei da oferta e da procura, doutor?. O detalhe sórdido é que não havia aviões para pilotar. (*) É médico e professor da Ufal.