Opinião
A ret�rica e o guia eleitoral
Com o início do guia eleitoral, a retórica se transforma na protagonista das campanhas em programas de rádio e televisão pela disputa de votos. O discurso político é um constante jogo dialético entre o interesse do candidato e do eleitorado, construído de modo a adequar-se ao pensamento coletivo. De aspirante a vereador em pequeno município a prefeito de grande capital, todos tentam adequar suas propostas ao público que pretendem influenciar, como uma meia que se acomoda confortavelmente aos pés, cobrindo sua silhueta de forma impecável. Se conceituarmos a retórica como principal biombo da filosofia do discurso, difundida a partir de pensadores gregos da era clássica, veremos que o esforço em fazer com que massas cada vez maiores de mentes venham a aderir ao ideário do proponente discursador tem sido, ao longo dos tempos, objeto de acuradas investigações científicas e filosóficas. O filósofo inglês Gilbert Ryle identificou em sua teoria (failure-words/sucess-words) que à boa retórica era indispensável apresentação de termos que evocassem das pessoas melhores sentimentos em detrimento daqueles que instigassem reações azedas, ou, ao contrário, o achincalhe de certas denominações para serem usadas como bode expiatório. Como não rememorar a conhecida e hilária mentira propagada nos pontos mais longínquos do País, na época em que para frear o ímpeto revolucionário de Luís Carlos Prestes e da sua Intentona dizia serem os comunistas comedores de crianças indefesas. Ou seja, o comunismo deixava de ser idéia, conceito, para ter toda a sua semântica transviada para escamotear intenções políticas de seus adversários. Nos últimos tempos, vimos o surgimento de mais um ?lobo mal? do discurso político: o neoliberalismo. Sem direito à defesa, o neoliberalismo passou a ser o incubo de todo e qualquer malefício ocorrido no mundo (na economia, na cultura, na educação), tornando-o símbolo de egoísmo, mesquinharia, trapaça, ausência de compaixão para com o próximo, ceticismo, desmonte da máquina pública, dentre outras palavras escabrosas que o põe tal qual a alegoria de todo o mal. Não obstante o uso indevido do termo, o neoliberalismo nada mais é do que uma tentativa de unificação discursiva de idéias econômicas defendidas por uma série de estudiosos que tentaram correr contra a maré inflacionária que assombrou o mundo na década de setenta do século 20. Boa parte de seu amálgama ideológico transformou-se em consenso dentro do planejamento econômico das mais variadas estirpes políticas. Vejamos algumas dessas idéias, elencadas por Fábio Gianbiagi, economista do BNDES: disciplina fiscal incorporada por níveis ótimos de superávit primário; redirecionamento dos gastos públicos, saindo de áreas de exacerbada influência política corporativista para incrementar outras mais urgentes como a manutenção da administração pública; reforma fiscal com diminuição de alíquotas e aumento da base tributária; liberalização da taxa de juros para que o mercado o faça de maneira realista; unificação da taxa de câmbio; eliminação gradativa das barreiras comerciais ao produto importado com o fim último do melhoramento global da competitividade; extração das barreiras ao investimento externo; privatização; desregulamentação; e respeito à propriedade privada. (*) É doutor em Direito,