Opinião
A crise e o Estado
| MARCOS DAVI MELO * Enquanto os mercados financeiros entravam em crise profunda e as muitas medidas tomadas por diversos governos pelo mundo ao invés de atenuar o sangradouro parece que o estimulavam. É impossível se fugir às correlações com a maior crise vivida pelo capitalismo até hoje: a Grande Depressão de 1929. A indústria norte-americana conheceu grande desenvolvimento, desde o fim do Século 19 ? a Segunda Revolução Industrial. Durante a 1ª Grande Guerra, os EUA desenvolveram ainda mais o mercado de trabalho, a indústria e diante do colapso na produção dos países em conflito, desenvolveu uma superprodução agrícola e industrial que os supria. Após a guerra, esta superprodução continuou até que os países europeus, recuperados, começaram a utilizar a sua própria capacidade produtiva. Com a redução das exportações, os estoques começaram a acumular perigosamente. Grande parte destas empresas possuía ações na Bolsa de Valores de Nova Iorque e milhões de norte-americanos tinham nelas todos os investimentos. As ações começaram a se desvalorizar, acarretando uma corrida dos acionistas para vendê-las. O efeito manada foi devastador. As ações se desvalorizaram fortemente em poucos dias. Pessoas ricas, bruscamente, tornaram-se paupérrimas. Foi imenso o número de empresas que faliram e o desemprego chegou a 30% dos trabalhadores. Já existiam relações comerciais com inúmeros países e a crise se alastrou, atingindo inclusive o Brasil que tinha no café o principal item da pauta de exportações para os EUA. As exportações de café reduziram-se drasticamente, fazendo com que os preços despencassem. Para que não houvesse desvalorização excessiva, o governo brasileiro comprou e queimou toneladas do produto, diminuindo a oferta, conseguindo manter certo nível de preços. Como corolário, muitos cafeicultores começaram a investir no setor industrial, alavancando a indústria nacional. A crise só abrandou em 1933, no governo Roosevelt, com a introdução do New Deal, plano econômico que controlou os preços e a produção das indústrias e fazendas, conseguindo conter a inflação e evitar a formação de estoques. Houve também grandes investimentos em obras públicas com redução do desemprego. Em 1940, a economia estava estabilizada. A crise atual, originada na bolha imobiliária norte-americana, tem desfecho ainda imprevisível. O certo é que os governos por todo o mundo estão intervindo fortemente no mercado, mostrando novamente que o liberalismo financeiro puro é selvagem, autofágico, precisa de regulamentação criteriosa e controle estatal forte e permanente. (*) É médico e professor da Uncisal.