Opinião
Perd�o n�o foi feito pra gente pedir
O resultado dessa eleição deixou um cheirinho de otimismo um pouco exagerado quanto à mudança de comportamento do eleitor, que votou com consciência e mais qualidade, não há dúvidas. Figurinhas carimbadas ficaram temporariamente fora de combate, e no interior, alguns currais foram levados de enxurrada junto com seus coronéis por uma tempestade de revolta e desabafo do eleitor. Mas, não podemos esquecer que apesar de se falar em pleito tranqüilo, sem maiores problemas de ordem policial, por exemplo, tivemos uma disputa com grosseiros ataques pessoais, verdadeiras agressões verbais nos palanques em regiões tradicionalmente polêmicas onde rancor e ódio caminham, há décadas, silenciosamente muito próximos. É lei. A tentativa de fiscalização mais rigorosa exercida pela Justiça e PF, principalmente, intimidou parcialmente a corrupção desenfreada, mas não evitou o derrame de dinheiro para deleite da ignorância eleitoral. Resultados mal resolvidos e sem definição de eleitos ainda estão em julgamento pelo TRE, tempo suficiente para alimentar troca de acusações e crescentes destemperos ameaçadores, impregnando o ar com essa densa fumaça negra de revanche em pleno final de primavera alagoana. A produção desse cenário não parece tão tranqüilizadora. Se o momento aparenta sossego, o futuro, infelizmente não sinaliza tão bem assim a esperança de que, daqui pra frente, vamos navegar em céu de brigadeiro. Provavelmente os órgãos de segurança também não baixarão a guarda, e nem devem, pois existem claramente nas declarações públicas de candidatos derrotados inúmeros interesses contrariados, vaidades profundamente feridas, ambições pisoteadas pelas trilhas lamacentas da campanha. Sem falar nos bolsos esvaziados e na ?vergonha? da derrota somada à perda do poder. Contrariando o poeta e sambista Ataulfo Alves, nos versos da política dos coronéis, perdão não foi feito pra gente pedir. Que bom se tudo isso não passasse de simples devaneios! Que bom se o eleitor pudesse ir tocando a vida acompanhando de perto o desempenho dos candidatos em quem votou, para chamá-los à responsabilidade na próxima eleição, reelegendo ou expurgando-os definitivamente da vida pública. O nosso histórico, porém, é bem diferente, a gente sabe disso. Como sabemos também que os bastidores do certame este ano estiveram mais pra baile funk, cujas conseqüências, lá adiante, serão imprevisíveis, com desdobramentos capazes de provocar profundas cicatrizes no seio de algumas famílias. Os rejeitados do povo pela manifestação livre e democrática do voto, voltarão logo, mais cedo que alguns imaginam serão solenemente empossados com as pompas que exige o protocolo para exercerem cargos em secretarias, assessorias, gabinetes, afinal, como diz o ditado, ?quem é rei nunca perde a majestade?. Por isso, não é difícil entender que a mudança é apenas um pingo d?água num oceano de ondas traiçoeiras clamando esforços dos alagoanos do bem para que a semente ora plantada, germine com doação e participação da sociedade organizada ensinando aos que ainda não entendem que a luta é permanente para vencer o mal e construir o futuro. (*) É publicitário.