Opinião
Crian�a � para dar trabalho, n�o para trabalhar
Uma vozinha fina pergunta ao grupo de estudantes ? Quer doce? Um dos meninos responde ? Não. É doce de quê? O garoto responde ? Coco. A cena acontece atrás de mim. Estamos em mais um dia de aulas práticas lá no Conjunto Denisson Menezes. Parados na rua, finalizamos alguns preparativos, para em seguida iniciarmos a visita na área. Olho para a criança: é um menino franzino de uns 6 anos. Tem as pernas fininhas, os olhos brilhantes e inquietos, o calção está folgado e, carrega nos ombros com cuidado, uma pequena fôrma cheia de cocadas. Sua atenção está focada em andar, sem derrubar o pano branco que cobre as cocadas, e é claro, sem derrubar as cocadas. Por um instante, acomoda a fôrma num canto da calçada e corre atrás de um gato. A irmã mais velha (8 a 9 anos) passa-lhe um pito ? Ô menino! Pega as cocadas pra vender! Se mãe vê isso! O menino pára de correr, coloca a fôrma de volta nos ombros num ato solene, e vai embora em sua rota laboral. Criança trabalhando? É brincadeira! Não! Trabalho de criança é brincadeira! Um artigo do Ipea fala sobre essa realidade. A força de trabalho que carrega o Brasil, ainda conta com ajuda desses braços miúdos. Baseado nos dados do PNAD 2007, o artigo afirma que apesar da legislação brasileira proibir qualquer forma de trabalho para menores de 16 anos, salvo na condição de aprendiz (a partir de 14 anos), existem 2.500.842 crianças e jovens trabalhando. Esse documento revela que apesar dos programas de transferências monetárias terem elevado a freqüência escolar, a redução do trabalho infantil não foi tão expressiva porque, talvez aquelas que trabalham, trazem para casa, um valor maior do que o recebido pelo programa. Muitas crianças de 7 a 15 anos, estão fora da escola e chegam a trabalhar por mais de 40 horas semanais. Neil Postman adverte que o fenômeno do desaparecimento da infância pode, a exemplo do ocorrido em outras épocas, estar voltando. Em diferentes contextos, as crianças estão no momento atual, voltando a ser adultos em miniaturas. É o ciclo da pobreza alimentado pela insanidade do capital. É a submissão da sociedade às regras do mercado. Das crianças e jovens de baixa renda, que trabalham para receberem uma ?ninharia?, às oriundas de diversas classes socais, que trabalham como modelos recebendo fortunas, todas estão perdendo uma fase da vida. Ouvi alguém dizer ? Isso é bom! Assim crescem sabendo o valor do trabalho! Para estas pessoas, vale citar uma parte de um poema de Maurício de Macedo que diz: ?Se cantam em liberdade os pássaros, pousados nos galhos mais altos ou tecendo guirlandas no ar, também canta o passarinho aprisionado na gaiola do alpendre?. (*) É professora da Ufal.