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O risco-pa�s

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HUMBERTO MARTINS * Milhões de brasileiros estão se perguntando: o que serão mesmo essas agências de risco que classificam o Brasil em penúltimo lugar, entre todas as nações, na frente apenas da caótica Argentina, em matéria de economia e finanças? O que serão mesmo essas agências que julgam o Brasil um país mais arriscado para investir do que Uganda, Somália, Moçambique, Angola e outras cubatas assoladas por intermináveis flagelos, revoluções e endemias sem conta? O índice de risco-país é o julgamento que a comunidade financeira internacional (bancos, departamentos do Tesouro e afins) faz dos papéis (títulos) emitidos pelas diversas nações para arrecadar recursos. Quanto mais uma nação paga em juros para trocar esses papéis por dinheiro, maior o risco. O referencial para essa avaliação são os juros pagos pelos papéis emitidos pelo governo dos Estados Unidos. Por exemplo: quando se informa que o risco-país é de mil pontos, isso indica que os títulos de uma determinada nação estão pagando juros mais caros dez pontos do que os papéis emitidos pelos Estados Unidos. A cotação dos papéis emitidos pelo governo brasileiro é influenciada pela implacável lei da oferta e da procura. Quando exige mais procura dos títulos, o preço dos juros cai. Quando, ao contrário, os papéis encalham, os juros sobem. São variados os motivos que influem na definição do risco-país: desconfiança de que uma nação deve mais do que consegue pagar e aplicará um calote ? caso da Argentina, no momento; crises localizadas que ameaçam contagiar uma região ? exemplo da Argentina na América do Sul ? , manobras dos grandes grupos financeiros internacionais, que ganham mais à medida que os juros pagos por uma determinada nação se elevem; saldos insuficientes ou negativos da balança de comércio exterior, que refletem o que uma nação compra e vende no seu relacionamento com as demais. As conseqüências do rebaixamento de uma nação na avaliação sobre o risco-país se fazem sentir conforme o grau de endividamento e o perfil de sua dívida. Se não há necessidade de amortizações ou pagamentos de juros a curto prazo, o mercado absorve as informações negativas, ocorrem fatos posteriores e a situação pode melhorar. Quando um país deve muito e tem que pagar em curto-médio prazo, a repercussão é muito grande, como é o caso do Brasil. Quanto maior o risco-país, maiores são, também, as possibilidades de desvalorização da moeda da nação afetada. Temendo que os responsáveis pela política econômica não consigam arrumar as contas, pagar os compromissos em dia e possibilitar aos grupos empresariais igualmente endividados que o façam, empresas e pessoas começam a comprar, em grande escala, o dólar, que funciona como uma espécie de moeda-padrão internacional. O dólar era a única moeda-padrão internacional, até a criação do euro, pelos países da União Européia. O euro está se valorizando com notável rapidez, alcançando quase a cotação do dólar, como conseqüência da lucidez da condução econômica e política dos países da aliança européia, que contrasta com as atitudes equivocadas e precipitadas do atual governo dos Estados Unidos. Quanto ao Brasil, terá de adotar, mais cedo ou mais tarde, algumas atitudes imprescindíveis à sua viabilidade econômica: arrecadar mais do que gastar, eliminar o déficit público, aperfeiçoar suas estruturas econômicas e administrativas, exportar mais do que importar, alongar mais o perfil da sua dívida externa e reduzir sua dívida interna. Esses são os caminhos da recuperação. Será que o risco-país não é mais uma tentativa dos países ricos de desestabilizar a economia do Brasil, em relação ao dólar? Precisamos, sim, de uma reflexão mais apurada sobre o assunto. (*) É DESEMBARGADOR DO TJ/AL.

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