Opinião
O sagrado e o profano
Quis situar no tempo a data do que vou contar e rapidamente consegui. Era por uma dessas tardes em que os compromissos se embrulhavam e eu corria para resolvê-los. Havia, entretanto, um deles, que eu não poderia faltar: o do mestre Osório. Aposentado do Estado, amigo há mais de 40 anos, sempre me acompanhava nos meus trabalhos, mesmo quando eu mudava inesperadamente de setor. Seu recado era claro: ?Doutor, no dia 27 de setembro, às 17 horas, há uma festinha em minha casa; conto com sua presença?. Indaguei do que se tratava e ele me respondeu que era surpresa, mas que eu não poderia faltar. Desculpei-me, alegando compromissos anteriormente assumidos. Mostrou-se decepcionado: ?Doutor, o senhor está trabalhando demais, aceite meu conselho: assuma a gerência do ?banco solemar??. Eu não entendi, e ele explicou: ?Aproveite o sol do verão, o banco da praça e o mar, tão bonito na região em que o senhor mora?. Banco solemar? Essa me fez rir intensamente. Não pude ser pontual, cheguei meia hora após o horário aprazado e surpreendi-me: um galpão enfeitado com bandeirolas, bolas coloridas, desenhos e pinturas infantis, mesas de doces e bolos. Orgulhoso, Osório apresentou-me a seus vizinhos e amigos. Era a festa de Cosme e Damião. Para mim, até aquele momento, a existência desses santos parecia tratar-se de pura lenda. O anfitrião bateu de frente com o conceito que eu fazia dos santos: explicou que a festa era um agradecimento por um milagre alcançado. Sua neta estivera gravemente doente, com diminutas possibilidades de cura, e depois de apelar para todos os recursos da medicina, a família fez um novenário a São Cosme e São Damião, com um pedido de cura para a adolescente; e ela ali estava ?sãzinha da silva?. Contou a história desses santos que praticavam a medicina sem receber qualquer pagamento. Diziam: ?Nós curamos as doenças em nome de Jesus Cristo e pelo poder dele?. Aproveitavam as curas realizadas para divulgar a fé cristã. Perseguidos e condenados pelo imperador romano Diocleciano, resistiram a várias tentativas de execução. Amarrados e atirados em águas geladas, sobreviveram. Na fogueira, as chamas mudaram de direção e atingiram os carrascos, queimando-os. Flechas e pedradas não os atingiram, causando assombro aos algozes. Numa última tentativa, foram decapitados. Terminada a exposição do dono da casa, as crianças se empanturraram de doces e bolos e eu acrescentei mais dois santos no pedestal de minha admiração. (*) É médico e ex-secretário de Educação e de Saúde.