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O povo man� e o Garrincha

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O sol mal acabara de nascer quando Mané Garrincha saiu de uma boate e foi diretamente para o campo de treino. Vicente Feola o chamou para uma conversa ao pé-de-ouvido. Depois da reprimenda, confidenciou-lhe a estratégia para o jogo do final da tarde: ?Ao receber a bola do Didi, livre-se dos adversários, vá até a linha de fundo e cruze na cabeça de Vavá?. E Garrincha: ?Será que eles vão deixar, professor?!? A inocente irresponsabilidade de Garrincha têm tudo a ver com a cultura política do brasileiro. Não estamos nem aí com a aplicação dos nossos impostos! Tem futebol, cerveja, mulher e carnaval?! Mais do que isso estraga! Claro que o leitor quer saber onde quero chegar. Pois bem, no último fim de semana fui convidado para uma festinha na casa de um amigo. Ele estava radiante, pois seu caçula havia concluído o curso de economia. Como sabemos, nesses encontros fala-se o que vem na ?telha?. Mas naquele dia o cardápio não variava. Comentou-se se o Fluminense e o Vasco vão ser rebaixados; se no ano que vem o Ronaldo vai para o Flamengo; ou se o Ronaldinho é melhor do que o Kaká. Lá para as tantas, já empanturrado de futebol, consegui introduzir política no cardápio das discussões. Perguntei a garotada o que ela estava achando do atual governo petista. ? Ninguém conserta mais este País, é melhor a gente falar sobre outro assunto, comentou um garoto iniciante do curso de direito. E voltou a falar de futebol. Se o desenvolvimento de um país se mede pela cobrança que o povo faz dos seus políticos, estamos fritos, pensei. Aí tomei as rédeas da conversa. Disse que o povo brasileiro está fazendo o papel de ?mané?, pois a omissão política só favorece aos times dos desonestos. Pedi licença e fui buscar uma constituição que tenho guardada no porta-luvas do carro. Ao voltar, li o início do parágrafo único do artigo primeiro: ?Todo poder emana do povo...?. É esse poder, disse, que nos dá forças para fazer marcação individual contra a impunidade, a corrupção e os privilégios. Fui mais além e disse que devíamos utilizar nossa soberania para exigir controle dos gastos públicos e, consequentemente, evitar a emissão de títulos da dívida, a elevação da taxa de juro, a especulação financeira e a vulnerabilidade econômica. Saltou o neófito de economia, o filho do anfitrião, e fez-me a seguinte pergunta: ?Será que os políticos vão deixar a gente fazer tudo isso, doutor?!? Risos... (*) É contador.

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