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Opinião

Momentos �nicos

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Lembro-me que tinha saído de um teatro. Estava em férias e sem pressa ? flanando ao léu, poderia afirmar. Ao pôr o pé na rua, empurrado pelas pessoas que vinham atrás de mim, surpreende-me a mudança repentina do tempo. O vento gélido realçava ainda mais a sensação de frio. Não sei se é o caso do leitor amigo, mas acho o frio exagerado uma coisa medonha. Porém, terníssimo leitor, deixemos essa divagação acerca de nossas sensações térmicas e como a elas reagimos, ao largo, e passemos ao que importa. Olhava ao redor, quase à beira do desespero, e não vislumbrava nenhum abrigo, um vão entre paredes ou mesmo uma mísera delgada coluna onde pudesse abrigar meus ossos enregelados dos açoites da ventania. Apresso o passo ao longo da calçada e vejo uma escadaria, feericamente iluminada, que levava ao metrô da cidade onde estava. Penso: devo seguir adiante ou entrar e me aquecer um pouco. Esta indefinição é prontamente resolvida por uma lufada de vento gélido e me precipito escadaria abaixo em busca de um pouco de conforto. Ao alcançar o longo túnel, alguns metros abaixo, ouço, caro leitor, embevecido, misturado aos rangidos metálicos dos trens que chegam e partem, saídos de um violino, os acordes belíssimos de uma sonata de Albinoni. Viro-me e reviro-me à procura, tentando posicionar um dos ouvidos ao ponto exato de onde se originava aquela música enternecedora. Encontro. Um senhor de meia-idade encostado a uma parede próxima ao local onde paravam os trens. Tocava maviosamente. As pessoas passavam apressadas, indiferentes, como se estivessem surdas. Transitavam diante do violinista como se ele fosse invisível. Estou certo, musicólogo leitor, estivesse você lá faríamos dupla diante do artista para ouvi-lo. Digo faríamos uma dupla ? e já corrijo ? porque uma garotinha de uns doze ou treze anos, com cabelos da cor de milho, bem agasalhada, a bordo de um casaco rosa, postou-se diante dele e pregou seus olhos, de um azul profundo, nas cordas do violino. Fiquei atônito, perplexo, pasmado. O encanto da música estava sucumbindo à correria estabanada dos transeuntes na pressa de alcançar o trem que, com as portas abertas, parecia um monstro metálico a devorá-las insaciavelmente. Ninguém, repito, ninguém, se permitiu esperar o próximo trem, como a garotinha, e perder alguns minutos entregando-se ao êxtase da sonoridade que saía do violino. Penso, entristecido, em quantas ocasiões não fui capaz de me arrancar do amarfanhado cotidiano e apreciar momentos singulares que a vida nos oferece. Instantes que valeriam toda uma vida, se ao menos me detivesse para prestar atenção. (*) É engenheiro e diretor da Casal.

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