Opinião
O sorriso dos eleitos
O que teriam em comum os prefeitos eleitos de São Paulo, Gilberto Kassab; do Rio, Eduardo Paes e o candidato democrata Barack Obama? Os dois patrícios elegeram a saúde pública como o principal desafio de suas novas gestões; questão também colocada como fundamental pelo norte-americano, que foi muito além: no meio da semana fez um pronunciamento de U$ 5 milhões pela TV onde afirmou que mudará os EUA e o mundo e garantiu que será um presidente honesto. Os nacionais têm muitos outros problemas para enfrentar, como o transporte público caótico e a violência campeando em suas metrópoles. Obama, o favorito, se eleito, terá além do terrorismo, do Afeganistão e do Iraque, a gravíssima crise financeira; mas a saúde pública pontificou no seu discurso e de todos enquanto candidatos. Otto Von Bismarck, perene referência como homem público na Alemanha e no Velho Mundo afirmava: ?Nunca se mente tanto, escancaradamente, como nas eleições e nas guerras?. No Novo Mundo e em outro campo de atuação, o artístico, a impressão é semelhante; Shirley Maclaine gritava que: ?Era inútil pedir contas a um homem pelo que ele fez em três ocasiões: quando ele está apaixonado, quando está bêbado e quando é candidato a algum cargo político?. Sabidamente, uma das razões para a saúde pública ser esta coisa horrorosa que é em todo o Brasil é a crônica insuficiência de financiamento adequado. É também do conhecimento geral que a máquina pública nacional é muito pesada e torra dinheiro despudoradamente, desprezando item fundamental para a comunidade que é a preservação de sua saúde. Daí, que reconhecer esta realidade e podendo, não agir para transformá-la é uma questão puramente ética. Ética, que em política é uma questão deplorável. Voltaire já afirmava: ?A política tem a sua fonte antes na perversidade do que na grandeza do ser humano?. E o nosso Clovis Rossi, sempre sintonizado com a cena nacional certa vez escreveu: ?Ética, no Brasil, é roupa feita sob medida: quando se está fora do poder, tenta-se vesti-la de fraque e cartola. Uma vez no poder, uma sunguinha já basta?. Obama prometeu mudar o mundo e honestidade. Teria que começar pelos políticos. Lá e cá, onde a prática desvalida da democracia ainda inspira o Millôr Fernandes a dizer: ?Democracia é eu mandar em você. Ditadura é você mandar em mim?. Mas, apesar de tudo, como Alfred Smith afirmou: ?Todos os males da democracia só podem ser curados com mais democracia?. (*) É médico e professor da Uncisal.