Brain rot:
Tempo demais nas redes sociais ameaça o seu cérebro... e a produtividade das empresas
São fantasmas que assombram o caminho brasileiro para a competitividade global: analfabetismo funcional e iliteracia digital. Com falta de tempo para ler e tempo de sobra para as mídias sociais, a mistura pode dar espaço a um novo obstáculo no caminho, com direito até a nome em inglês: brainrot, que foi, segundo o Dicionário Oxford, a expressão do ano em 2024.
Cunhada há mais de dois séculos pelo filósofo Henry David Thoreau, refere-se à deterioração mental ou intelectual pelo consumo de conteúdos superficiais ou pouco desafiadores. Como reza a sabedoria popular, o que não se usa (no caso, o cérebro), atrofia - ou, como Thoreau colocou de forma mais dramática, apodrece. Vale a reflexão à luz dos resultados de pesquisa recente que colocou o Brasil entre os cinco piores entre 67 países avaliados por sua capacidade de competir globalmente.
Aparentemente uma inócua decisão pessoal, consumir conteúdos rasos não serve apenas ao entretenimento fácil via redes sociais. Em excesso ao ponto de desaguar no tal brainrot, coletivamente tem o poder de afetar a competitividade das empresas e o desenvolvimento do país, ao se somar a um renitente quadro de analfabetismo funcional: no Brasil, dados recentes mostram que 27% da população entre 15 e 64 anos não tem a capacidade de interpretar textos e realizar operações matemáticas simples.
Não para por aí. O Brasil é um dos países que mais passa tempo online (3,5 horas diárias nas redes sociais), mas, apesar disso, apenas um em cada quatro brasileiros possui conhecimentos digitais básicos, como enviar um e-mail com anexo ou baixar um aplicativo, segundo a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel).
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Essa iliteracia digital prejudica tanto quem busca emprego quanto as empresas, que enfrentam dificuldade para encontrar talentos com as habilidades necessárias. Mesmo superando as deficiências da educação básica, a escassez de competências digitais limita a adoção de tecnologias e reduz a eficiência operacional das organizações.
Perdem o profissional, a empresa e o país. O Brasil caiu de 56º lugar em 2020 para a 62ª posição em 2024 no ranking do IMD suíço, que avalia a competitividade de 67 nações. E os mesmos fantasmas continuam a assombrar nosso desenvolvimento.
Segundo o IMD, a inteligência artificial pode alavancar a produtividade, mas sua implementação é desafiadora — ainda mais em um cenário onde analfabetismo funcional e iliteracia digital se misturam.
A boa notícia é que há caminhos possíveis. Políticas públicas de alfabetização funcional e digital têm o potencial de melhorar o ensino e formar profissionais mais qualificados. Mas isso leva tempo. No médio prazo, as empresas podem investir em capacitação contínua, atualizando habilidades para um mercado cada vez mais digitalizado.
E, no curto prazo, cabe a cada um refletir sobre o tipo de conteúdo que consome e como utiliza seu tempo livre. A pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, do Instituto Pró-Livro, revelou que 82% gostariam de ter lido mais — mas 47% não o fizeram por “falta de tempo”.