Opinião
O estilo e o homem
Há um ano, a notícia de doença súbita do presidente Ib Gatto ? o Gigante das Alagoas ? da Academia Alagoana de Letras, causaria profundo impacto entre seus amigos e admiradores. Pobres mortais da planície, nós outros olhávamos a figura criativa, inquieta e lúcida do mestre, torcendo para que o Olimpo o resguardasse para sempre dos males de Pandora. Sob a liderança de Milton Hênio, não obstante o doloroso vazio, a quase nonagenária Academia de Letras viu-se obrigada a tomar medidas que resguardassem sua funcionalidade, tocando a rotina e prosseguindo com a restauração da Casa de Jorge de Lima, sonho tornado realidade pela obstinação do doutor Ib. Nesta semana a ?Casa de Gracindo? vira uma página da sua história dando posse a dom Fernando Iório Rodrigues, uma das mais respeitadas figuras do clero alagoano. Publicano de última fila, o ex-paroquiano vibrou com a ascensão do seu antigo confessor. Bispo emérito de Palmeira dos índios, dom Fernando coroa sua vida de intelectual como presidente do mais importante silogeu do Estado. ?O estilo é o homem?, afirmou o prelado, repetindo Buffon, em seu belo discurso de posse. Testemunhei de certa forma o ?estilo Iório?. Pároco de Bebedouro, ele me viu criança, eu o vi jovem padre entusiasmado, dinâmico, renovador. Hoje, afloram-me as lembranças das missas aos domingos O alto falante da Matriz ressoando a voz grave praça afora, quem sabe, de olho nas palavras proféticas do Galileu: ?Ide e pregai os evangelhos...? Naquelas inflamadas homilias ouvia-se falar de Paulo, Cícero, Platão, Sócrates, Agostinho, Aquino, muitos desses pela primeira vez na vida. Nos escaninhos da memória, desfilam na procissão do Senhor Morto o negro Domingão, imenso no seu terno escuro apertado e a fita azul da Congregação Mariana orgulhosamente ao pescoço. Numa outra fila, os nem sempre piedosos meninos da cruzada eucarística, outra criação de Iório para motivar os novéis católicos. Talvez inspirado nas concorridas festas do Major Bonifácio Silveira, dos ?velhos bons tempos? de Bebedouro, o jovem sacerdote estimulava quermesses, paus-de-sebo, reisados, revelava talentos, ressuscitando afinado pastoril, bem mesclando o profano e o sagrado. O estilo Iório inclui verdadeira obsessão pela cultura, pela educação. Em Bebedouro, daria impensável salto de qualidade ao ensino fundando o Ginásio Santo Antonio, aprisco seguro para as classes média e pobre do lendário bairro. (*) É médico e professor da Ufal.