Opinião
O charme da filha do senhor de engenho
Produtores de cachaça em Alagoas estão empenhados em incrementar a sua produção e comercialização, com o objetivo de competir com outras marcas e colocar a ?branquinha? alagoana no rol das melhores do Brasil. Para isso, alguns fabricantes vêm melhorando a qualidade e a apresentação (embalagem e rótulo) de seus produtos, uma vez que a bebida mais popular do País está em alta nos bares e restaurantes da classe média e da elite. A iniciativa de estimular o fabrico e as vendas da bebida poderá contribuir para o crescimento da economia do Estado, criar novos empregos e repercutir de maneira positiva no turismo. Contudo, não convém tentar dar à cachaça o status de uísque, como vêm fazendo alguns bares e restaurantes, servindo uma dose da ?água que pinto não bebe? ao preço de uma garrafa de bebida importada. Como se sabe, a cerveja é a bebida mais consumida pelo brasileiro. No entanto, há quem assevere, que a cachaça é a preferida do alagoano, talvez por ser Alagoas um grande produtor de cana-de-açúcar e, também, por causa do baixo poder aquisitivo da população, que se vê impedida de consumir bebidas mais caras, sobretudo, no interior. Pois, além disso, em algumas localidades onde ainda não dispõem de energia elétrica, os biriteiros encontram dificuldade para acondicionar bebidas que devem ser consumidas gelada. Considerando que a valorização da cachaça se deve a sua imensa contribuição à cultura popular, a majoração extorsiva dos preços da tradicional bebida, somente faz com que ela fique metida a besta, o que não é recomendável. Portanto, engana-se quem imagina que aumentando o preço da ?lapada? da ?caninha? estará aumentando o seu prestígio, porque o charme da ?filha do senhor de engenho? está mesmo na sua popularidade, que se tornou imbatível, já a partir do século 16, haja vista a sua extensa sinonímia, a mitologia, além dos ritos dos bebedores, como, por exemplo, o de ?dar um gole ao santo?, jogando uma pequena quantidade ao chão, antes de degustá-la. Em suma, nenhum produto é capaz de superá-la, como fonte de pesquisa e de estudos no folclore brasileiro. A ?mardita? está presente em todas as expressões culturais, notadamente na música, nas manifestações de caráter religioso e na literatura de cordel: ?Coitado de quem não sabe / com a cachaça lidar / finca a cabeça no chão/ e vira de pernas pro ar?. (*) É advogado, membro da Comissão Alagoana de Folclore e da Academia Maceioense de Letras.