Opinião
Coragem castigada
Mais tragédias, mais lições ignoradas. Os acontecimentos ocorridos no interior de um quartel de polícia na cidade do Pilar são exemplares da perplexidade e da incapacidade da sociedade (brasileira), e especialmente da polícia, em reagir à altura ao banditismo. Cada vez mais, as vítimas estão lendo levadas a esboçar algum tipo de reação, ato deveras perigoso, não recomendado, mas inevitável em função de caso de vida ou morte e da crônica ausência policial. E se as vítimas, no momento seguinte à reação, alcançam o improvável sucesso, passam imediatamente a correr riscos decorrentes da coragem desaconselhada ? pois podem ser processadas por tratarem mal os bandidos e, depois dos ?coitadinhos? dos marginais serem soltos (ou mesmo ainda presos) a vingança não tarda. Vejamos o noticiado por toda mídia: uma vítima reage a uma tentativa de assalto (um aparelho celular) e com a ajuda de outras pessoas da comunidade, imobiliza o acusado e conduz o meliante à polícia. No posto policial, a única PM presente, desconhecendo os perigos da vida real, cumpre à risca as orientações legais e manda desamarrar o suspeito (algemas, nem pensar) apesar dos alertas das vítimas sobre a periculosidade do rapaz pilhado em flagrante (menor, de 17 anos). Ato contínuo, o jovem bandido desarma a policial e dispara quatro vezes contra a vítima original, não matando a PM apenas porque a arma falhou no quinto tiro. Quais as lições desta tragédia? Em primeiro lugar, rotular tal seqüência de fatos como ?fatalidade? é um insulto à inteligência alheia. O mais importante seria as autoridades reconhecerem as falhas do sistema, a inadequação de certos procedimentos policiais, a caduquice de algumas leis e construírem propostas urgentes para a adoção de novas políticas públicas de segurança ? de preferência apoiando as vítimas no lugar da preservação dos bandidos.