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O m�rtir de Minas

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EDUARDO TAVARES MENDES * O Brasil inteiro revoltou-se, em janeiro deste ano, com a triste notícia do assassinato do promotor de Justiça de Belo Horizonte, Francisco José Lins do Rego. O crime, que vitimou o representante do Ministério Público mineiro, acentuou a instabilidade e a insegurança que, concretamente, já fazem parte do dia a dia dos brasileiros. Como compreender que alguém que tem a incumbência de velar pelos interesses maiores da sociedade, defendendo intransigentemente os bens mais valiosos da humanidade como as florestas, a fauna, os rios, o mar, enfim, a vida, em todas as suas formas e manifestações, não tenha sido capaz de defender e de preservar a própria vida? Engajado, nos últimos meses de sua existência, no combate às fraudes contra o consumidor, o mártir do Ministério Público mineiro teve o mesmo destino do alagoano Sílvio Vianna e de tantos outros homens extraordinários que ousaram investigar crimes cometidos por ?poderosos? e, por isso, pagaram com a perda do bem mais valioso que possuíam. Deixou uma lacuna na história do combate à criminalidade, que tem marcado a trajetória do Ministério Público nacional. Promotor de Justiça austero, Francisco José desempenhava sua função com coragem, amor, obstinação e, sobretudo, com fé. Acreditava na transformação da realidade social, dura e cruel, que tão seriamente aflige a população brasileira. Poeta, herdou do avô, o romancista e escritor nordestino José Lins do Rego, o talento literário. Dos livros publicados pelo autor de ?Menino de Engenho?, declarava a sua predileção por ?Moleque Ricardo?, em face da abordagem do problema social, especialmente do homem que deixa o Interior para ganhar a vida na cidade grande. Sua identidade com o mestre das letras revelava-se com bastante firmeza: o romancista denunciava, em suas obras, as perversidades da sociedade patriarcal. O neto promotor, enfrentando com firmeza a máfia urbana, de certa maneira continuava a obra ficcional do avô. A morte trágica do poeta e promotor Francisco José Lins do Rego pôs fim, prematuramente, a uma carreira das mais brilhantes e vibrantes do Ministério Público. Infelizmente, a atuação altiva, independente e corajosa do Ministério Público tem incomodado muita gente. Se até mesmo algumas autoridades públicas, não raro, condicionadas, ainda, a procedimentos antigos e ultrapassados, da época em que o autoritarismo e o arbítrio norteavam seus atos administrativos, legalizados sob o manto da discricionareidade, não admitem ser fiscalizadas pelo órgão defensor do estado de direito e da sociedade democrática, imaginem, então, os integrantes do crime organizado, das ?gangues? e das quadrilhas! Mas a abnegação e a coragem, grandes qualidades da alma, são palavras de ordem no Ministério Público da atualidade. Após a morte física fica a memória, permanecem nossos atos, nossas realizações, nossas atitudes. Francisco José Lins morre mas nos deixa um legado: seu exemplo de vida, sua bravura. Com certeza, outros integrantes do valoroso Ministério Público continuarão a investigar, com muito mais vigor, as ações dos donos de postos que adulteram combustíveis, das quadrilhas que surrupiam dinheiro público e do crime organizado. A justiça haverá de prevalecer. (*) É PRESIDENTE DA ASSOCIAÇÃO DO MINISTÉRIO PÚBLICO DE ALAGOAS

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