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Contos no tempo

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CLÁUDIO VIEIRA * Conheci-a jovem professora no colégio de sua família. Sua loirice e seus olhos azuis sideravam-nos, a nós seus alunos adolescentes. Éramos jovens respeitosamente apaixonados pela bela mestra, ela mesma ainda quase uma adolescente. Um dia, encontrou ela o seu Homero, este, ao contrário de seu homônimo grego, perfeito de visão. Poderia não ser ele um poeta; todavia, dedilhava com mestria o violão e cantava românticas músicas com canora voz. Conquistou-a; casaram-se; tiveram filhos; amam-se até hoje, estou certo. É ele um amigo querido, dessas pessoas cuja palestra, em forte voz de cantor, se gosta de ouvir. Ela, a minha professora, continua professora e escritora da mais pura sensibilidade. Teomirtes de Barros Malta presenteou-me, recentemente, com o seu excelente Contos no Tempo. São maravilhosas estórias, afloradas de sensibilidade, existencialismo e estilo inconfundível. Li-os, não sofregamente, de um só sorvo, como se costuma dizerao elogiar-se uma obra literária, aquela que nos prende na leitura até o seu final. Não! Li-os com vagar, degustando-os como se faz com um velho, bom e precioso vinho. Por que a pressa, afinal, se a cada conto uma nova estória de vida era resumida em poucas, mas substanciosas páginas? Por que a sôfrega leitura se a cada ficção um pouco de realidade aqueles contos revelava? Por que a ligeireza, pois, repetindo a professora Teomirtes (A Casa do Lado), àquelas leituras ?Talvez eu quisesse trazer em vão o distante para aquele momento único ou fazer crescer a imagem de um passado que tentara perder-se no tempo?? E o contar? A forma calma na superfície, plácida na lâmina d?água... Vulcão interior, força recôndita que à alma atenta se deixa perceber. Esse, o estilo que, já dito por alguém, é o próprio homem, no caso, a mulher Teomirtes. Existencialista, inicia seu livro com o belíssimo ?Os Pássaros Voltaram?, narrando a estória de Olga, menina sofrida da cheia que lhe devastara a cidade onde vivia. Sua morada destruída, é recebida em casa da personagem por algum tempo, o necessário apenas para que a família pobre da garota se estabelecesse da catástrofe. Diz-nos a narradora, nesse conto, de pássaros do seu marido, presos em gaiolas bem cuidadas. Conta-nos, também, ter em certo dia, sentido a falta do cantar dos passarinhos; constata estarem as gaiolas abertas, os pássaros fugidos, nenhuma pipilar ao alvorecer. Olga, a responsável pela revoada, seria repreendida com severidade; todavia, o filho da narradora diz-lhe com a sabedoria simples das crianças: ?Mãe, não pense que foi Olga. Ela apenas conversou com a gente. Era uma maldade mesmo eles ficarem presos o tempo todo. Coitadinhos! Como deviam sofrer, sem direito a ver o sol, voar!... Para que têm asas?? Assim como os pássaros do seu conto, a minha professora Teomirtes tem as suas asas para voar; asas da sua inteligência criadora, do seu pensamento que voa sem peias ou amarras; asas para ser a brisa livre e solta, vento alísio que infla e impulsiona, com seu vigor, as velas dos navegantes que, dos mares, calmos ou revoltos, fazem a estrada de suas vidas. (*) É ADVOGADO MILITANTE

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