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Opinião

Pescar ou esmolar

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Discretíssimo leitor, vou fazer-lhe uma confissão! Não a considere uma gabolice e peço-lhe que a guarde para si. Ei-la: sempre que me sinto enfadado, sorumbático com a minha amarfanhada e entediante rotina em Maceió, invento de ir ao Sertão. Apanho o fone, ligo aos colegas da Casal, sediados na região, programo alguma inspeção às nossas adutoras e disparo para aquelas paragens. E vou feliz, com o peito estufado e o coração a saltitar. Alguns dias atrás, outro motivo também me arrancou da capital em direção ao Sertão. Para a zelosa Organização das Nações Unidas, 2008 é o Ano Internacional do Saneamento e, cioso das grandes questões que afligem a humanidade, fui visitar as obras de esgotamento sanitário nas cidades do semi-árido alagoano. Nesta época, sou seduzido pelo cinza infinito da paisagem sertaneja e pelo sol abrasador. E, salubérrimo leitor, se você quer aparentar uma vitalidade de um touro e adquirir uma tonalidade saudável, bronzeada, esqueça os banhos na enseada da Pajuçara e me acompanhe em uma dessas incursões ao interior. Ao apear do carro, em Santana do Ipanema, sou assolado por um calor de sauna. Após a visita às obras mostro interesse em visitar um projeto do Ministério do Meio Ambiente, denominado ?Programa Água Doce?. Sou apresentado por um colega ao nosso guia. Um técnico da prefeitura local. Pessoa boníssima, afável, falante, extrovertida. Com ele seguiremos em direção a um povoado da zona rural, onde se desenvolve o programa que prevê acesso à água potável, através de um dessalinizador. O rejeito líquido, um concentrado com elevado teor de sais, é enviado a tanques para criação de peixes e irrigação da erva-sal, utilizada para a produção de feno. Para o sucesso, a participação da comunidade no trabalho é imprescindível. Espraio os olhos na área do sistema e noto a ausência de gente labutando nos tanques dos peixes e no manejo da erva-sal. Indago ao guia: ?Onde estão as pessoas??. Sinto certa tensão no ar. Ele resmunga: ?O maior óbice é esse, falta envolvimento dos moradores?. E, sem muita ênfase, deixa suspenso no ar e dá-me margem a interpretar, de mim para mim, que, entre aprender a pescar e a esmola do Bolsa Família, optaram por esta última. Já li, não sei onde, que tudo neste mundo é transitório e contraditório. Pois eis aqui, tórrido leitor, em pleno Sertão, a comprovação dessa verdade: uma ação de um ministério ?Bolsa Família?, em clara oposição a outro ?Programa Água Doce?. Uma lástima! (*) É engenheiro e diretor da Casal.

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