Opinião
Fio reaprumado
Tomei um susto quando percebi que já estaria completando cinqüenta anos de balé em 2008. Movida por um arrebatamento causado pelo impacto dessa constatação, decidi escrever as minhas memórias. Procedi, exatamente, um ano e seis meses de um longo mergulho à cata de todos os meus passos, giros e saltos, desenhados no chão e no ar, na busca incessante de um aprimoramento na arte da dança. Salas de aula, mestres, ensaios, palcos, excursões, esforço, suor, convites, renúncias, camarins, refletores, aplausos, magia... Palavras que, soltas no tempo, se completam por um fio tramado numa malha especial, a malha de uma sensibilidade própria dos artistas. Como (eterna) estudante de balé, como bailarina, mestra e coreógrafa, tive tudo isso. Uma batalha vitoriosa, do meu ponto de vista, o de uma amante ferrenha dessa arte tão séria e tão cheia de encantos. Poucos beberam da poção mágica do balé e não a valorizaram. O dia-a-dia de um bailarino lhe fica não só impregnado nos músculos e articulações, como na alma, essencialmente na alma. Foi preciso pesquisar muito, pois não queria contar simplesmente com a minha memória, muitas vezes escorregadia, duvidosa. Procurei, então, traçar um equilíbrio entre o documental e as emoções que permeavam os meus muitos momentos de reclusão. Crônicas, cartas e diários de meu pai, jornalista Medeiros Cavalcanti; crônicas e matérias de outros jornalistas; minhas agendas anuais, programas de espetáculos e outros recursos me deram subsídios para que eu pudesse deixar um legado de uma história vivenciada no amor. Ao escrever, teci cada pedacinho como se fora uma obra de arte, e passei a acreditar mais e mais na grandeza e mistério do universo. Pensando nos leitores leigos na área da dança, preocupei-me em, através de notas de rodapé, falar um pouco daqueles profissionais que são citados ao longo do texto. O desfile de notoriedades da dança no Brasil e fora dele é enorme. Ou seja, embrulhei num só pacote mestres e colegas que compuseram essa minha história de vida artística. Não tive a pretensão de contar a história da dança e sim, por meio das minhas memórias, fazer um recorte expressivo de toda uma época. 50 anos de plié ? Memórias de uma alabucana foi o título que escolhi para esse livro. São 15 anos de dança em Recife e 35 anos em Maceió. A minha saudade de Recife e Olinda está exposta sem barreiras. O desnudamento se fez presente em toda a feitura do livro. (*) É bailarina e coreógrafa.