Opinião
Humanidade contradit�ria
Meu neto Caio está impressionado com o noticiário sobre as enchentes em Santa Catarina. Provando aquela velha máxima iluminista de que os homens nascem bons (e depois são corrompidos pela degradada sociedade burguesa), Caio vem cobrando dos avós o rápido envio de donativos. Nos seus sete anos, ele tem dado comovente exemplo de altruísmo, recusando certos alimentos, na convicção de que seu sacrifício será revertido em doações aos flagelados. Como num filme, me vi criança falando com meu pai para fazer doações aos desabrigados do estouro da barragem de Orós, no Ceará, 50 anos atrás. Não me lembro se fiz algum tipo de renúncia, evitando excessos alimentares, por exemplo, fato que comprova a precoce influência maléfica da pequena burguesia sobre o meu caráter. Sombras permeiam a solidariedade. É que, conforme denúncias e relatos, boa parte desses donativos jamais chegará ao seu destino, posto que, criminosamente desviados, irão ocupar prateleiras de supermercados. A canalhice não chega a surpreender. Aqui mesmo nas Alagoas, já corre processo contra condestáveis acusados de montar quadrilha e desviar milhões destinados à merenda escolar. Por falar em virtude e bondade, tenho recebido mensagens com a ficha policial da ministra Dilma Rousseff, supostamente extraída dos arquivos dos ?porões da ditadura?. Se for tudo verdade, a ministra, na época atendendo por ?Estela?, dentre outros codinomes, era boca-quentíssima. Destacava-se por ser exímia ladrona de bancos e seqüestradora. O aludido dossiê insinua retenção indevida para uso pessoal de milhões de dólares furtados da casa de Ana Benchimol, lendária amante do não menos lendário Ademar de Barros (?rouba mais faz?). O fato é que, nos próximos anos, poderemos ter na Presidência da República uma polida senhora, hoje posando de lady inglesa, repaginada, aparentemente recuperada das insalubres atividades da rebelde adolescência. Aproveito o espaço para falar de outro e-mail enviado pelo hematologista Luiz de Souza Júnior. Íntimo dos textos sagrados, meu ilustre colega corrigiu uma informação emitida no artigo da semana passada. Falando sobre Noé, afirmei que ele, embriagado, teria sofrido abuso sexual das filhas. Na realidade, quem sofreu esse constrangimento foi Ló, o sobrevivente de Sodoma. Sobre o velho Noé pesa dúbia exegese de ter tido o sofrimento de, quando embriagado, ter sido vítima de relação homossexual praticado pelo filho caçula Cão. (*) É médico e professor da Ufal.