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Drogas e as dores que provocam

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Faz mais de 20 anos, quando observei pela primeira vez, as caminhadas regulares de pessoas, que, diariamente, fazem percursos ao longo das avenidas à beira-mar. Percorrem quilômetros e mais quilômetros convencidos do bem que fazem às suas vidas, contribuindo para uma boa saúde. Muitos já não se lembram, mas foi o dr. Cooper, um médico americano dedicado ao esporte, que idealizou esse método para melhoria do condicionamento físico. As caminhadas venceram o sedentarismo de muitos, entusiasmando jovens, homens de meia-idade e idosos. Diz o entusiasta dr. Joaquim Barbosa: ?O dia em que não caminho é um dia a menos em minha vida?. Quando eu estou caminhando, vou observando os passantes. Alguns não largam o celular, outros passam por mim na ida e na volta em silêncio, retraídos. Muitos, alegres, ensaiam um bom-dia ou sorriem cordialmente. Um senhor, bastante assíduo às caminhadas, chama minha atenção: tem semblante triste, enigmático, anda sempre sozinho, não parece conhecer ninguém. O destino vai nos apresentar, como conto a seguir. Primavera, manhã clara, e, mais que de repente, uma chuva torrencial cai encharcando o passeio e os transeuntes. Abrigo-me, numa das barracas do calçadão. Lá encontro aquele senhor sisudo e triste. Tento uma conversa; ele responde que já me viu muitas vezes. Conta-me sua história, em pedaços, como se muito lhe custasse. Morava em Recife, tinha um filho de 17 anos, jovem e bonito, motivo de orgulho de toda a família. Repentinamente, descobriram que ele estava usando drogas; e, para piorar, utilizava cocaína, que tem um efeito devastador. Reunida, a família tentou tudo. A luta contra os males causados pela tóxico ? dependência foi cheia de muitos lances. O corpo do jovem, antes cheio de vida e de saúde, foi definhando, virou sombra do que foi. Uma noite, ao voltar do trabalho, deparou-se com um quadro brutal. O jovem tentara suicídio e, após semanas em estado comatoso, faleceu. Há dores que não se podem descrever; lágrimas desciam dos olhos dele ao contar essa história. Lembrei-lhe que a ?Fazenda da Esperança?, que cuida de jovens drogados, em Marechal Deodoro, completa um ano de existência e já apresenta resultados favoráveis. É uma grande vitória a recuperação de pessoas que haviam perdido todas as esperanças e perspectivas de um melhor futuro. Quando vencem as drogas, transformam-se em novas criaturas: existência promissora que se abre para uma nova vida. (*) É médico e ex-secretário de Educação e de Saúde.

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