Opinião
Pamplona: o charme e a loucura das corridas de touros
Havia atravessado a fronteira da França com a Espanha sobre os Montes Pirineus a mais de mil e quinhentos metros de altura sob intensa chuva em direção à Coleggiata Real numa cidadela medieval, onde pernoitei no albergue de peregrinos que percorrem a pé o Caminho de Santiago de Compostela. Dia seguinte, à tardinha, chego à Pamplona, Espanha, andando 28 km por dia, numa jornada de quase 900 km. De boné, tênis, cajado, com dez kilos às costas, estava próximo ao albergue, quando cruzo a rua onde ocorre a famosa corrida de touros, nessa lendária cidade, tão antiga quando o Império Romano. Mudo o rumo e sigo o trajeto onde os touros, na ponta dos cascos, perseguem furiosamente, por quase um km, os ?malucos? que ousam desafiá-los. Descubro que para obrigá-los a seguir sempre em frente, pela avenida principal do centro histórico, foram afixadas, permanentemente, grandes cancelas fechando os becos nos cruzamentos das ruas. Cancelas fortemente chumbadas às paredes dos edifícios que permitem, após o evento, o comércio voltar à atividade normal, dando a impressão de cidade ?civilizada? com universidade respeitada, famosa Catedral de Santa Maria La Real, museus, restaurantes, hotéis estrelados, e a um só tempo, vivendo no meio rural. São coisas da apaixonante Espanha! Há cinco anos passados, durante o Festival de San Fermin, padroeiro da cidade, aqui estive para conhecer esta festa cheia de charme e loucura: as corridas de touros. Paralelamente, com chifres imensos na cabeça, só de calcinhas e cuecas, grupo de mulheres e homens desfilaram em oposição ao evento. Outro grupo de mulheres defendia uma corrida só para elas, à frente de vacas, nada de touros! Pamplona não é uma metrópole como Madrid ou Barcelona, com duzentos mil habitantes, reúne uma multidão de um milhão de visitantes durante o famoso festival. Guerreiros espanhóis vestidos de branco, bandanas na cabeça, lenços vermelhos no pescoço, faixas multicoloridas presas à cintura, em louca disparada à frente de touros ensandecidos que também perseguem ingleses, americanos, escoceses com saiotes, geralmente as principais vítimas dessas ?feras? que os remete diretamente ao hospital geral de Navarra. Isto é loucura! O charme fica por conta das belas morenas espanholas e das loiríssimas vindas de toda a Europa. De camarote, melhor dizendo, de uma vaga alugada por trinta dólares, numa janela de um histórico sobradão, assisti esta inusitada festa que acontece todos os anos na bela Espanha. (*) É ex-deputado, ex-senador e ex-governador de Roraima.