Opinião
Formatura
MARCOS DAVI MELO * Quando começou a solenidade de colação de grau no aconchegante auditório do Colégio Marista, já há dois dias os concluintes daquela turma da universidade e os seus parentes mais próximos vinham enfrentando uma maratona de aulas da saudade, missas e cultos associados a estes rituais de passagem, compartilhando espaços muito menos confortáveis que aquele moderno auditório. A missa tinha sido conduzida por um diácono esforçado mas titubeante, que claudicara em alguns salmos dos evangelhos, fazendo-os assim perderem muito da sua força, além do calor reinante dentro da igreja, cuja noite chuvosa não conseguiu amenizar. No culto evangélico, realizado no dia seguinte, predominou o clima de exaltação, turbinado por repetidos hinos de dois grandes corais. Choros convulsos de alguns emocionados formandos, membros da congregação, deram a tônica predominante. A noite de colação de grau teve o cenário ameno e impessoal do auditório do Marista, com ar-condicionado e o som de um teclado ao fundo, providenciando música suave na medida certa para amenizar temporariamente as ansiedades e emoções dos presentes. Um clima inicial de sossego como os vulcões prestes a entrar em erupção. A mesa foi composta com os professores homenageados, os patronos, paraninfos e o reitor. Da mesa um pronunciamento, dirigido para os concluintes, mas também para os familiares e talvez para própria voz, declarava que aquele momento era como um filme que rapidamente nos trazia à mente toda a vida do estudante até aquele instante, quando se transformava em profissional. Momento ?mágico? que transmudava rapazes e moças em homens e mulheres adultos, que a partir dali perdiam a cumplicidade de serem estudantes e o perdão pela possibilidade de errar. O mundo, no caso o mercado, não mais aceitaria deles esta franquia. Familiares emocionados, pais e mães de trêmulas pernas, que ao subirem em direção à mesa e ao momento maior da noite, a aposição do gorro na cabeça dos filhos concluintes e a aferição das palavras regimentais, ?concedo-lhe o grau?, explo-diam em disfarçadas emoções. A turma de concluintes reunida ao final para a foto oficial. Muitos nunca mais se encontrarão. Mistura fervente de sensações: euforia, vitória, angústia e apreensão com o futuro. O filme naquela noite, refeito na cabeça daquela mãe que reviu tudo rapidamente: desde o filho pequenino, iniciando-se nas escolinhas, o apego muito mais às brincadeiras que aos estudos. A adolescência e seus problemas ingovernáveis, o sufoco do vestibular, aquele momento. Embotada, ainda, a lembrança de sua própria formatura. Fria, apenas o pai presente. Algumas poltronas dali, um pai, assistindo ao filme semelhante, revia sua própria formatura longe de casa, da família, sem efusões ou comemorações. O rum montila como companheiro solidário na madrugada. Vagamente, surdamente, dominando a todos; inconsciente coletivo no mais recôndito de seus sentimentos, apesar da força da juventude, do otimismo dos jovens, de sua ainda pura visão do mundo, uma inalienável sensação de insegurança em relação ao amanhã. Imorredouras saudades dos tempos nos quais um jovem se formava e logo achava uma colocação, um emprego. Torturante sensação a dominar a todos, que os tempos são duros assim. Duros, sombrios e implacáveis como o seu Deus, o mercado. (*) É MÉDICO