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Opinião

De chantagens, barganhas e furadeiras

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Na visão de alguns luminares, no confronto Estado versus neurocirurgiões, os médicos estariam ?chantageando?. Para abrandar a infeliz expressão, alguém socorreu e optou por outro substantivo: ?barganha?. Diante das grosseiras impropriedades semânticas, peço arrego ao bom e velho Aurélio onde encontro: ?Chantagem, ato de extorquir dinheiro, favores ou vantagens a alguém sob ameaça de revelações escandalosas?. O menos agressivo ?barganha?, que também pode ser usado como ?troca?, tem significado não menos injurioso: ?Transação fraudulenta, trapaça?. Num relance, vieram à mente vários movimentos grevistas recentes, a exemplo daqueles dos auditores da Receita Federal, dos delegados da Polícia Federal e os dos próprios procuradores e assemelhados. Não é preciso acrescentar que, bem diferente dos médicos, cujos salários giram em torno de dois mil reais, essa turma de barões (incluindo a magistratura) tem remuneração mensal média de 20 mil reais. Quando essa gente pára em busca de mais regalias, ninguém ousa falar em ?chantagem? ou ?barganha?. Trunfos e capacidade de organizar-se estariam mais adequados. O fato é que há cerca de um ano os neurocirurgiões de Alagoas pediram demissão do Estado e coalizaram-se numa cooperativa. A intenção sempre foi muito clara desde o início: valorização da especialidade. Depois de suadas rodadas de negociação, chegou-se a um acordo salarial que, não obstante distante da proposta inicial, satisfez ao grupo. Passado o tempo, os neurocirurgiões querem oficializar a situação. Sim, porque até o momento o Estado não manifestou ação que demonstrasse interesse em formalizar o contrato. É tudo de boca. Não se pode falar de açodamento da nossa parte posto que doze meses é um prazo mais que razoável para se estudar saídas jurídicas. Num arrojado ato de cidadania, a neurocirurgia de urgência de Alagoas, aproveitou o momento de exposição para reforçar a insustentável situação da emergência no Estado. Nada há de novidade que o Ministério Público e o CRM desconheçam. A única coisa que está causando frisson é o uso de prosaicas furadeiras domésticas, sabidamente impróprias para uso cirúrgico. A bem da verdade, a direção do HGE tomou providências e está disponibilizando craniótomos. Não devemos nos esquecer, no entanto, que isso não significa necessariamente a aposentadoria das trepidantes e gloriosas furadeiras, posto que continuam marcando presença nos procedimentos ortopédicos. (*) É médico e professor da Ufal.

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