Opinião
Estrelas radiosas
O cineasta Pedro da Rocha conseguiu. Não desanimou diante da ausência de arquivos, da falta de dados da época, gravações, scripts. Focando seu trabalho nos depoimentos de alguns dos integrantes do rádio alagoano de tempos passados, Pedro, com a diligente assessoria da Vera Rocha, produziu o interessantíssimo documentário ?Estrelas Radiosas?. Lá estão a Floracy Cavalcante com sua belíssima voz e indiscutível talento; Cavalcante Barros, Kátia Lanuza, Cláudio Alencar e Edécio Lopes, estes verdadeiros memorialistas, historiadores a serviço da radiofonia alagoana, seus começos, seu desenvolvimento. No filme, entre inúmeras outras, a emoção de ouvir a voz do seresteiro Pedro Lima e a do querido Sabino Romariz, nuns cantinhos de saudade representados pelo velho rádio de madeira, seus enormes botões, objeto de consumo e de orgulho de toda uma coletividade que, afinal, podia saber dos fatos ocorridos no mundo, podia ouvir ?Palavras para Você?, com Jesualdo Ribeiro; notícias esportivas passadas com o humor do Jorge Vilar, a música bem programada pela querida e suave Ivanilda Almeida, e as novelas estreladas por mim, Silvia Lorene. O próprio documentarista, na felicidade do seu discurso na festa do lançamento, prometeu continuar seu trabalho de pesquisa, assumindo o compromisso público de complementá-lo, à medida que forem surgindo novas fontes de pesquisa. Lembrei-me de Zezé de Almeida e do que ela representou para o rádio das Alagoas, com sua voz, sua cultura musical, sua beleza, sua invulgar aptidão artística. Acho até que ela merece um documentário todo. Ficaram netos que hoje vivem em Aracaju. Alguém há de ligá-los ao poder criador do Pedro da Rocha. Quem sabe, eles têm fotos e papéis, ou gravações sobre ela? Zezé foi criada para a música. Seus pais lhe exigiram o curso de piano e canto com Iaiázinha Calmon, a grande mestra alagoana. Pianista, cantora e rádio-atriz, emprestou o seu glamour, profissionalismo e talento ao rádio em Alagoas. Quanto deve ter magoado aquela mulher de boa origem, boa família, casada, jovem e bonita, o preconceito e a maledicência tão próprios da província! Quanto lhe deve ter pesado a sua ousadia, a sua coragem! Sua história me lembra a de Madalena Tagliaferro, a internacional pianista brasileira que, em documentário exibido num desses canais de televisão fechada, de maravilhosa programação, falava, meio divertida na sabedoria de sua idade avançada, da quantidade de amores que lhe tinham atribuído as línguas ferinas do seu tempo. (*) É advogada, jornalista e radialista.