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Opinião

Um bispo indigesto

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Até a descoberta oficial do Brasil pelos portugueses, conta a história, nosso litoral já era visitado por povos de outras nacionalidades, particularmente os franceses, que aqui aportavam para extrair nossas riquezas visíveis: pau-brasil, macacos e aves ?exóticas?. Há um consenso entre historiadores, palpiteiros e curiosos em geral que os franceses, diferentemente dos portugueses, mantinham bom relacionamento com os índios, mesmo com aquelas tribos consideradas ?ferozes?, adjetivação aplicada correntemente aos caetés. As motivações deste tratamento diferenciado residiam no fato de os portugueses escravizarem os índios, enquanto os franceses ?negociavam?, fazendo trocas, de olho na valorizada madeira. Pegavam o que queriam e se mandavam. Na realidade, aquela lua-de-mel inicial entre índios e brancos, descrita por Pero Vaz de Caminha, logo se desmancharia. Aquele lance de homens e mulheres com suas ?vergonhas de fora?, sem qualquer pudor, talvez tenha transmitido aos exploradores europeus a idéia de que os índios não só seriam ingênuos como débeis mentais. Assim é que daquela afável receptividade inicial, após algum tempo, só sobrariam mágoas, decepções, desconfianças, e hostilidade, sobretudo entre os caetés, grupo que mais odiou os portugueses. Em junho de 1556, d. Pero Fernandes Sardinha, o primeiro bispo do Brasil, viajava para Portugal saído do Rio de Janeiro. Por conta de problemas morais do filho de Duarte da Costa, o clima entre Sardinha e o governador-geral não era dos melhores. A ida à Europa teria como missão denunciar as fraquezas morais do degenerado. Era 16 de junho quando uma tempestade jogou o navio N. Senhora da Ajuda contra os arrecifes de coral nos Baixios de D. Rodrigo. Dom Sardinha, com 98 passageiros, conseguiu escapar do afogamento. Mal sabia que na praia indóceis caetés aguardavam-no impacientes. Capturados com facilidade, na hoje Barra de São Miguel, d. Pero Fernandes Sardinha e seus companheiros foram servidos assados num banquete, definido como o ?maior banquete antropofágico do Brasil?. Os caetés pagaram caro pela degustação. Enfurecidos, Igreja e Coroa portuguesa não perdoaram a afronta, iniciando violenta represália, exterminando ou botando para correr toda a nação caeté do litoral alagoano. As terras abandonadas pelos autóctones transferiram-se para a Igreja. Nossa Senhora de Santana, padroeira da cidade, para sua honra e glória, ainda hoje recebe foro e laudêmios. (*) É médico e professor da Ufal.

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