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Recordando Midlin

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LUIZ SÁVIO DE ALMEIDA * Há muito tempo, em Penedo, nasceu uma grande amizade entre Betty Midlin e eu. Isso, na medida em que batíamos Penedo a pé, em busca de conhecer o passado e as gentes. Andar por Penedo no vazio do fim de tarde é algo a beirar o sublime. O calçamento de Penedo foi gastando sola, as ladeiras sendo vencidas e o papo rolava enquanto a amizade brotava. Tempos depois, ela iria prefaciar um livro meu. A Fundação Casa do Penedo monta um Seminário sobre Elysio de Carvalho e recebo o convite para participar. José Midlin estava lá. Na hora do café, levanto-me e vou fumar fora do Restaurante. Não gosto de fumar em recinto fechado, acho que incomodo. Uma pessoa acena para mim e indica que o Midlin queria falar comigo. Ele me cumprimenta e faço sinal de que assim que terminasse de fumar iria ao seu encontro. Riu. Voltei a fumar meu cigarro olhando para as águas que passavam. Ver as águas passando em contraste com os telhados é interessante. A Igreja das Correntes chama a gente, suas torres formam guias, como se estabelecessem um chamariz para os olhos em razão da paisagem. Entrei, apertamos as mãos e começamos a conversar. Era um homem extraordinariamente simples. Eu o conhecia por jornal, por notícia, por fama e confesso que fui conversar com certa reserva: ?Esse cara deve ser metido a coisa e me conheço: se pintar besteira, vai escutar outra!?. Pelo contrário, encontro um cidadão afável, simples, comunicativo. E daí transformou-se em Zé Midlin e por outras várias vezes estivemos juntos. No mesmo dia almoçamos, conversamos e depois saímos para passear. Não dá para conhecer uma pessoa deste modo, mas é possível armar um juízo. Ele me impressionou por dois motivos: a) a determinação e b) a objetividade. Talvez sem essas duas qualidades, jamais tivesse alcançado a montagem de sua famosa biblioteca. Quando eu olho para ele, contudo, não as vejo: biblioteca e fama. Vejo uma pessoa agradável, uma boa companhia e a sensação é a de que é um homem atencioso e bom. Suas ligações ficaram também com Cida e com Zana, que estavam no mesmo encontro e gostam de Elysio de Carvalho. Não posso dizer que são especialistas no autor, mas de fato são leitoras atentas. Midlin veio outra vez a Maceió e novamente estivemos perto. Zana esteve umas duas vezes com ele em São Paulo. O fato é que a filha e o pai ficaram com um pé nas Alagoas. Eu tenho um débito para com ele: reativou-me a idéia de que não se deve perder o objetivo. Era uma fase em que eu estava por baixo, pensando em largar a universidade e ir vender cachorro quente. É extremamente frustrante ser professor de uma Universidade, trabalhar feito o diabo e submeter-se à política de FHC. O salário já não dava para ser administrado; a idéia da possibilidade de uma falência pessoal assombrava a grande maioria dos professores universitários do país. Até mesmo a idéia de que estava sendo irresponsável com a família ao teimar em ser professor, passava pela cabeça de alguns. Vender cachorro quente seria uma alternativa. A história do José Midlin era simples: tudo se fundava em determinação. Foi assim que começou a colecionar livros, foi assim que continuou a colecionar livros. É claro, em termos de renda foi ser muito maior do que eu: foi ser advogado e depois industrial. Eu era e estava professor. Mas sendo o que fosse, continuava determinado desde os 14 em cima do mesmo objetivo: livros. Eu não podia mais mudar a minha vida. Restava-me manter na adversidade, a mesma determinação do José Midlin em busca dos seus livros e continuar amando aquela massa de alunos, alguns dos quais grandes amigos pessoais. (*) É PROFESSOR DA UFAL E DOUTOR EM HISTÓRIA

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