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Opinião

Gravador emudecido

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RONALD MENDONÇA * Quando o cacique xavante Mário Juruna foi eleito deputado federal pelo PDT do Rio de Janeiro, em 1982, o País, ainda sob o jugo militar, respirava com mais alívio, resultado da vitoriosa campanha da abertura ?ampla, geral e irrestrita?. Na mesma ocasião era alçado à condição de governador o ex-exilado político Leonel Brizola. A antiga capital federal, conhecida pela sua têmpera rebelde, era tida como a cidade mais politizada do País, uma das poucas, por sinal, a ter governo do MDB ? sigla que abrigava a oposição considerada legal - e que depois, com o pluripartidarismo, viraria PMDB. Antes da ?abertura?, como se tratava de eleição indireta, ou seja, entrava quem o governo queria, não deixava de ter seu toque irônico os militares terem de optar por um oposicionista para governar um dos Estados mais importantes da União. Contudo, não sei se maldosamente, dizia-se à boca-larga que os escolhidos para governar o Rio de Janeiro eram do bloco do chamado MDB ?dócil?, ?domesticado?, do qual fariam parte o ex-governador Chagas Freitas, dentre outros. O fato é que naquele 82, que pela primeira vez desde 65 se votaria para governador, o eleitorado mais consciente do País, aparentemente, entusiasmara-se pelos temas defendidos por Juruna, basicamente, direitos dos índios. Há quem assegure, no entanto, que a eleição do cacique fora um ato de protesto pelo arbítrio da ditadura ou então (mais provável) simples gozação coletiva dos patrícios cariocas/fluminenses, descartando-se, desse modo, a teoria do amadurecimento político (vide Agnaldo Timóteo). Depois de passar os 17 primeiros anos de vida isolado, o cacique xavante, além do seu biotipo e do seu modo direto, sem firulas, de falar o que pensava, grudara à sua peculiar figura indefectível gravador carregado a tiracolo. Dizia ele que cansara de ouvir promessas de políticos que jamais se cumpriam, negando-se até o que se teria dito. Incorruptível e espirituoso, o líder indígena teve alguns entreveros com colegas de Câmara. Certa vez, um deles o cutucou lembrando sua condição de ex-antropófago, ao que o exótico deputado respondeu sugerindo que poderia fazer o sacrifício de voltar ao atávico hábito alimentar, ?se provocado?, posto ?não apreciar carne de homem branco por ser muito doce?. Noutra ocasião, criticado por causa do costume tribal da poligamia, replicou que antes assim do que ter vários homens, como era o caso do, até então insuspeito, interlocutor. De repente, Juruna virou moda, valorizou-se a figura do índio, ocuparam-se espaços importantes na mídia. Programas humorísticos de TV mostravam um índio com o gravador, peitando autoridades, cobrando. Índio deixou de apenas querer apito, espelho e colar. É. Apesar de não ter sido reeleito, a ?gozação? parece ter valido a pena. (*) É MÉDICO E PROFESSOR DA UFAL

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