Opinião
O prodigioso menino da Levada
Na infância, um incidente no Colégio Diocesano daria o tom da indomável personalidade daquele que viria a ser o ?Gigante das Alagoas?. Em certa ocasião, sentindo-se injustiçado, recusaria cumprir renascentista punição. Bateu o pé e mudou de colégio. Temperamento inquieto, o ?menino pobre da Levada?, como ele próprio se definia, manteve-se fiel ao seu estilo, dele não se afastando nem mesmo com a relativa aposentadoria. Doutor Ib Gatto Falcão, não obstante ter pertencido a uma geração de grandes figuras, sempre surgia como a opção preferencial para definir metas e estratégias para as questões maiores do Estado. Como estudante de medicina, não se concedia relaxar nos compromissos com a faculdade. Natureza perfeccionista, o arraigado senso moral não lhe permitia decepcionar o velho avô com o insucesso de uma nota baixa ou o fracasso de uma reprovação. Em 1935, o aluno brilhante descartaria a possibilidade de uma promissora vida acadêmica na secular faculdade baiana para ser admitido como cirurgião-assistente da Santa Casa de Maceió. Polivalente, embrenhava--se nos labirintos da educação. Quatro décadas depois, mestre Ib já colecionava a construção de hospitais, faculdades de medicina, um modelar complexo educacional, além do envolvimento na criação de postos médicos, mercados, presídios, jornais, etc. Ultimamente, de sua trincheira na Academia Alagoana de Letras, esgrimiu em várias frentes. Pioneiro na luta contra o câncer, cantou vitória com a instalação de uma unidade de Radioterapia no Hospital Universitário. É que interesses escusos conspiravam através de um lobby perverso para o HU não ser contemplado com o equipamento. Doutor Ib não digeriu a demolição do Hospital Escola José Carneiro. Considerou a mudança do nome um ?estupro? à história da Medicina de Alagoas. Ninguém é perfeito. O mestre comprovou isso ao me convocar para escrever, à guisa de prefácio, a ?orelha? do seu último livro: Ao sabor dos ventos e das tempestades. A imprudência custou-lhe caro: tomei a liberdade de solicitar-lhe (sendo atendido) um prefácio para uma coletânea de contos e crônicas. Nos últimos meses, doutor Ib travou embate desigual com a doença. Numa cruel racionalidade, os deuses terminaram sendo meio generosos com o Gigante. Embora ausente da cerimônia de inauguração da Casa de Jorge de Lima, concederam-lhe vida suficiente para saber que sua missão estava cumprida. (*) É médico e professor da Ufal.