Opinião
Pinto na lata
?Menino é bicho malvado?, dizia o sábio Antônio Luiz, barraqueiro da Usina Santa Amália. Essa sentença não traduzia desamor para com as crianças. Exprimia simplesmente a observação de que, por falta de experiência, as crianças não conseguem assumir a posição de quem sofre. A lembrança de fato acontecido em minha infância convenceu-me de que o velho filósofo estava certo: a título de curiosidade, meu amigo Zé Benedito e eu colocamos uma lata vazia sobre um frangote, apanhado no terreiro; consumada a prisão, apanhamos dois tarugos de madeira e tamborilamos por algum tempo sobre o fundo da lata transformada em prisão; terminado o batuque, levantamos a lata; vimos a pequena ave, aos tropeços, sem prumo nem rumo; mais parecia um bêbado, em estágio precomatoso. O sofrimento do animal, não gerou compaixão; pelo contrário, fez-nos rir às gargalhadas. Hoje, enxergo com reserva o teorema de Antônio Luiz. Não o considero errado, mas demasiadamente restritivo. Para mim, correto seria dizer que ?o homem é bicho malvado?. Uma circunstância atual me trouxe a essa convicção. Consideradas as devidas proporções, a experiência do pinto na lata está sendo repetida em escala infinitamente maior e mais cruel. Desde dezembro último, os jornais dedicam amplas manchetes a um fato horripilante: o exército de Israel ? o mais bem preparado e equipado do mundo ? cercou, em exígua faixa de terreno semideserto, um milhão e meio de seres humanos desarmados e indefesos. A seguir, decretou o mais absoluto embargo de água, alimentos, calefação, medicamentos e assistência médica. Num requinte de maldade, nega às pessoas encurraladas a possibilidade de fugir. Consumado o cerco, o portentoso exército passou a despejar por terra, mar e ar milhares de bombas, algumas, de fragmentação. Mulheres, crianças, velhos e civis inocentes, são exterminados indiscriminadamente. A desesperadora situação em que se encontra esse milhão e meio de criaturas consegue ser pior que aquela em que se encontrava o infeliz galináceo torturado por mim. O Holocausto a que está submetido o povo, na Faixa de Gaza é certamente tão cruel e covarde quanto aquele praticado no gueto de Varsóvia. Os sionistas, vítimas do nazismo, revelam-se tão cruéis quanto seus algozes. O gueto de Gaza convenceu-me: malvado mesmo é o bicho-homem. (*) É escritor e ministro aposentado do Superior Tribunal de Justiça/STJ.