Opinião
Gafieira
?Só há nobreza, honra e magnificência na guerra ou no ócio?. Não, filósofo leitor, essa frase ? ou algo parecido ? não foi dita por mim, e, sim, por Nietzsche. De vez que, como sou um homem avesso a derramamento de sangue e qualquer ato violento, por mínimo que seja, me deixa em sobressalto e me exaspera, optei, nas minhas merecidas férias, entregar-me, de corpo e alma, ao... ócio. Isso mesmo, ócio. Pretendia rever parentes e aderentes no Rio. Pretendia e fui. Ancorei minha velha carcaça na Cinelândia. Instalei-me, e, aproveitando os derradeiros fiapos da luz do sol, que já se escondia mais vagaroso do que um adeus de um apaixonado, fui às bancas. Bancas de revista, que fique bem claro, porque assim como sou avesso à violência sou rebelde a jogos. Aproximo-me de uma delas. Espalho os olhos nas manchetes das folhas locais dependuradas como lençóis em varais. São escabrosas, abomináveis: ?Corpo carbonizado em acesso ao lixão...?; ?Ossada encontrada em matagal...?; ?Traficantes disputam pontos de droga...?; ?Menor é estuprada...?; ?Chacina na periferia...? Aflito, murmuro comigo: ?Tudo igual, aqui como lá, lá como acolá. Qualquer esperança é vã?. Naquele instante, angustiado leitor, pareceu-me que nossa sociedade perdeu a dimensão dessas perigosas ocorrências que palpitam em seus subterrâneos e que corroem o que resta da nossa face humana. Estou, acabrunhado e desesperançado por esses pensamentos tenebrosos quando ocorre um fato prodigioso, quase sobrenatural. Um vendaval, vindo sabe-se lá de onde, atravessa o calçadão, arranca do varal os jornais dependurados e transforma as saias das jovens em balões desejosos em elevá-las ao céu. Minha avó materna dizia-me que vendaval repentino é um anjo que passa. E ele veio a mim em forma de um papel amarelo, que se prendeu aos meus pés. Apanho-o e deito os olhos sobre ele. Era um panfleto de propaganda de uma gafieira situada na praça Tiradentes que, com letras garrafais vermelhas, dizia: ?Enquanto houver dança, haverá esperança?. Aquilo me ilumina, e, com as mãos crispadas em torno do papel, corro para o primeiro táxi que vislumbro. Entro e disparo para o condutor a ordem: ?Leve-me à Esperança?. Boquiaberto, ele volteia-se para mim. O rosto é uma máscara de assombro. E eu, suplicante: ?Fica logo ali, nas gafieiras da Tiradentes?. O carro arranca e acode-me então à memória uns versos de Guillén: ?Tenho a alma feita de ritmo e harmonia/tudo em meu ser é música e é canto/desde o réquiem tristíssimo de um pranto/até o trino triunfal da alegria?. (*) É engenheiro e diretor da Casal.